Cacete e pouca cenoura

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Alberto Matos

dirigente do BE

A fábula do cacete, da cenoura e do burro tem hoje em dia uma versão bizarra. Usada desde sempre pelos governos para manter o “bom povo” no redil da ordem dominante, a táctica consistia em ir acenando com promessas de uma vida melhor (cenoura) a uma distância conveniente, recorrendo ao cacete sempre que o burro escoiceava ou ameaçava desviar-se do destino previamente traçado.
Nestes dias de chumbo do consulado da “troika”, a ração de cenouras está a esgotar-se – faisão só para amigos, como o Amorim – e o capataz prepara afanosamente o cacete.
É extensa a lista de malfeitorias do governo PS/PSD. Desde o início do ano lectivo com menos escolas, menos professores e auxiliares, actividades extra-curriculares congeladas, creches sobrelotadas e mais desemprego no sector da educação.
Transportes públicos mais caros e a degradarem-se; o preço dos combustíveis sempre a subir, mesmo quando a cotação do crude baixa; carestia nos bens e serviços essenciais, como a água e electricidade, empurrada pela subida do IVA para 23%.
E a inflação só não disparou (ainda) devido à quebra da procura, forçada pela baixa real e nominal dos salários; pelo roubo anunciado do subsídio de Natal; pela redução do subsídio de desemprego e de todas as prestações sociais, incluindo o abono de família, num país e numa Europa em queda demográfica…
Depois dum brutal aumento da carga fiscal sobre quem trabalha e da recusa do imposto sobre as grandes fortunas, o prometido corte na despesa não afectou as “gorduras do Estado”, mas abateu 1.500 milhões de euros à Educação, à Saúde e à Segurança Social.
Por exaustiva que seja esta lista, ela estará desactualizada ao chegar à banca dos jornais. Revoltante é a miserável “caridadezinha” dos descontos para pobres que se sujeitem a uma infindável teia burocrática e permitam a devassa das suas vidas, pondo em causa o mais elementar conceito de cidadania e a universalidade dos serviços públicos.
Para quem não acredite no anúncio do “fim da crise” para 2012 (cenoura), Passos Coelho aproveitou a rentrée do PSD para proferir ameaças (cacete) sobre o movimento social de protesto que se vai levantar num Outono quente, já em 1 e 15 de Outubro. O tom de ameaça vai até “quem se entusiasme com as redes sociais e com aquilo que vê lá fora”, evocando “um país de brandos costumes”…
Sabendo que não tem mais cenouras para distribuir, o Governo prepara o cacete. Talvez por isso, admitiu que os cortes orçamentais poderão ter excepções nalgumas áreas de segurança. Não tanto nos polícias de giro – em breve poderão repetir-se os episódios de “secos contra molhados” –, mas talvez nas secretas que, no intervalo da espionagem empresarial, irão dedicar-se à “nobre tarefa” de vigiar as redes sociais…
As audições de Silva Carvalho, antigo chefe das secretas e actual quadro da Ongoing, são ilustrativas: em nome da pretensa defesa da soberania nacional, temos serviços de informações governamentalizados, fora de controlo parlamentar e usados como fonte de corrupção protegida pelo segredo de Estado.
O verdadeiro alvo, como sempre, é o chamado inimigo interno: os manifestantes, os sindicatos, os estudantes e agora também os cibernautas. É preciso extinguir este cancro da democracia – aqui fica a sugestão para reduzir o défice…

P. S. – Depois do voto contra os projectos do PEV, do BE e do PCP sobre a linha ferroviária do Alentejo, rasgando uma promessa eleitoral clara, só resta ao deputado do PSD eleito por Beja (e ao seu suplente) uma solução: usar orelhas de burro até ao final do mandato. E sem direito a cenouras!

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