Bigodes de Verão

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

David Marques

O senhor Rikard Palm, ilustre desconhecido para a maioria de nós, é um conhecido pivot do canal público de televisão sueco. Este senhor, de 47 anos de idade, após o gozo de férias regressou ao trabalho, que é como quem diz, aos ecrãs de televisão, com um novo visual, apresentando um apêndice piloso, vulgo bigode, que, segundo o próprio, havia sido muito elogiado pela esposa do sr. Palm. Pois parece que o novo visual chocou os telespectadores de tal forma que após o primeiro serviço noticioso apresentado pelo senhor a estação de televisão foi inundada por telefonemas de protesto pela nova imagem do apresentador. O exercício reivindicativo dos telespectadores surtiu o efeito desejado, o que levou a que uma hora depois Rikard Palm surgisse nos ecrãs já despido de apêndices, completamente escanhoado.
É extraordinária a televisão e o mundo dos <i>media</i>, que consegue levar um homem adulto a prescindir por completo de alguns dos seus direitos, neste particular o direito de autodeterminação da imagem. Deve ser a partir deste tipo de exemplos que se fala no elevado grau de desenvolvimento dos suecos, uma sociedade que interpreta de forma rigorosa os seus direitos enquanto colectivo, quanto mais não seja para acabar com o bigode de um dos seus. Uma sociedade presente que não deixa por mãos alheias o seu destino e que não permite pêlo na venta a qualquer um.
Perante isto fica a eterna questão: onde param os bigodes do nosso imaginário? Sim, porque não é só na Suécia que se atacam os bigodes. Os actores galãs ou duros de bigodes finos ou mais rudes que aprendemos a admirar, os futebolistas dos anos 70 e 80 que do alto dos seus bigodes farfalhudos pregavam grandes “bigodes” aos adversários e que todos aplaudimos, por onde andam esses heróis? Perderam-se no tempo porque ficaram fora de moda, porque caíram em desuso, porque a pressão social impede que voltem a crescer. Hoje, os heróis que exibiam esses vigorosos sinais de masculinidade renderam-se à transformação dos tempos e ao poder da imagem que se vende, com excepção de alguns poucos resistentes, que mantém a muito custo e contra todos, esse traço de personalidade.
É curioso observar como evoluem e são diferentes os significados destas modas e destas opções de imagem ao longo do tempo. A propósito desta conversa lembro-me dum diálogo de um filme português dos anos 50, julgo que d’ “O Comissário de Polícia” mas sem certeza, em que a propósito duma situação difícil uma senhora pede que lhe chamem um agente da polícia, mas não um qualquer, “um de pêra, porque impõe mais respeito.”
Finalizando este texto “cheio de pêlos” com uma nota séria da actualidade regional observamos que o Baixo Alentejo levou um “bigode”, neste caso um “bigode” económico com sotaque do Brasil. O anúncio da localização das duas fábricas da Embraer em Évora é um golpe profundo na ideia do <i>cluster </i>aeronáutico de Beja. Bigodes destes custam a fazer desaparecer!

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