Bento XVI e o Benfica

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Rodeia Machado

técnico de segurança social

Dois acontecimentos marcam de forma indelével, cada um no seu contexto, o início desta semana e vão perdurar no tempo: a visita de sua Santidade o Papa Bento XVI e a conquista do campeonato nacional de futebol pelo Sport Lisboa e Benfica.
Não pretendo, não quero, nem é essa a minha intenção, dizer que as pessoas ficam adormecidas com estes acontecimentos, mas certamente a relevância deles, não pode nem deve fazer esquecer o estado do país, mas sobretudo o estado em que vivem muitas famílias portuguesas, às quais bateu à porta a doença, o desemprego, o infortúnio, ou seja, numa palavra, a pobreza.
Essa é talvez, não, é de certeza, a pior situação para cerca de 25% da população portuguesa e para a qual estes acontecimentos também dizem alguma coisa, também lhe tocam, mas não acrescentam nada ao seu estado, à sua depressão, ao seu estado dramático de vida.
Mas voltemos à visita papal.
Eu sei que ela é muito importante para a maioria dos católicos portugueses e certamente nestes dias o país e os portugueses vão estar atentos com a vinda a Portugal do chefe máximo da Igreja Católica. Mas o que eu não compreendo e não posso aceitar é que pelo facto em si se tenha de fazer parar serviços e dar tolerância de ponto aos funcionários. E o que é mais grave é que em Lisboa se tenha reparado o Terreiro do Paço, todo alindado, todo bonito, onde foi montado um espaço para a missa, e que este pavimento, feito à pressa, seja depois retirado após a visita papal.
Fala-se de crise e ela efectivamente existe, mas gastar uma verba, certamente avultada, para depois ser destruída e voltar a ser reposto novo pavimento é que não lembra a ninguém. Ou por outra, lembra à Câmara de Lisboa e ao seu presidente, que segundo se afirma se comprometeu com esta situação.
A visita papal é importante, como disse, mas não exageremos.
Por outro lado, o Benfica sagrou-se campeão nacional de futebol desta época de 2009/2010, contra a vontade de muitos, que não queriam ver o Benfica campeão. E para gáudio de muitos mais que queriam que fosse. Basta ver a imponência das manifestações de regozijo por todo o país e também pelo mundo onde existem comunidades portuguesas.
Eu, como sócio do Benfica, também fiquei empolgado pela vitória e pela consequente conquista do campeonato, mas tudo me traz à memória factos que são menos positivos, ou antes, são extremamente negativos. E esses são os que são propalados pelas claques dos clubes.
Nestes últimos tempos foram as manifestações negativas na final da Taça da Liga, em que os adeptos do FC Porto partiram tudo por onde passaram, foram ainda os distúrbios no último jogo Porto-Benfica, as manifestações que tiveram lugar dentro e fora do estádio de futebol, com o autocarro do Benfica a ser apedrejado e a polícia a dizer que não tinha sido nada e foram as centenas de isqueiros e milhares de bolas de golfe que foram atiradas aos atletas do Benfica. Os incidentes do último domingo, no Porto e em Braga, são demonstrativos da intolerância que se instalou.
Assim, definitivamente: não!
Os acontecimentos são para serem vividos de forma intensa por todos, mas respeitando a diferença, quer esta seja religiosa ou clubista.
Só assim poderemos respeitar e ser respeitados.

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