Beja – Uma cidade adiada!

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

João Espinho

Completaram-se no passado dia 25 de Outubro dois anos de mandato do executivo da Câmara Municipal de Beja (CMB). Esperava-se da parte do mesmo um balanço sobre a obra feita ou, no mínimo, os projectos que tem agendados/calendarizados para os próximos dois anos. Seguramente ciente de que poucos lhe dariam ouvidos, o executivo comunista da CMB remeteu-se a um silêncio a que já nos vai habituando e que só quebra quando está certo que as palavras não têm o efeito de <i>boomerang</i>. Como nos parece que o actual executivo padece de sintomas de “fuga à realidade”, não se estranhou, pois, esta evasão a uma prestação intermédia de contas.
Faça-se, então, um breve balanço, só possível exercendo a comparação entre o que se prometeu e o que está à vista.
Para tal é necessário recordar que o lema “Tradição – Mudança – Modernidade / Bej@.com futuro”, que nos foi oferecido pela CDU em campanha eleitoral, nasceu de muitas reuniões preparatórias com alguns sectores da população – uma espécie de antecipação do Município Participado – onde, julga-se, foram lançadas as propostas que enformaram o compromisso eleitoral dos comunistas nas Autárquicas de 2005.
Olhemos então para alguns dos aspectos desse rol de promessas.

<b>Desenvolvimento Económico </b>– Prometeu-nos o PCP uma estratégia global, assente nos projectos de Alqueva, do aeroporto e da “Aldeia do Conhecimento”. Se compreendemos o que significam Alqueva e aeroporto, já da “Aldeia do Conhecimento” só sabemos aquilo que vem no programa eleitoral comunista. É que não se vislumbra onde está o “parque tecnológico para instalar empresas, <i>clusters</i> de inovação, ligados às universidades e ao Politécnico” a fim de atrair talentos, projectos e empresas. Desconhece-se, igualmente, onde está e o que tem feito o Conselho Económico e Social, que deveria reivindicar a <i>criação de concelhos infra-estruturados tecnologicamente, onde dê gosto viver e instalar empresas </i>(transcrição do programa eleitoral da CDU). Se lermos com atenção todas as promessas feitas – disseminação das novas tecnologias, cativação de talentos, apoio à fixação de massa crítica, criação de um <u>gabinete de apoio ao empreendedorismo</u>, etc – percebe-se que, nestes dois anos, a política levada a cabo pelo executivo da CMB vai em sentido contrário. Exige-se o pagamento de derrama a um tecido empresarial depauperado, não se alivia a carga burocrática na circulação de documentação para a instalação de empresas, não são colocadas ferramentas da nova era tecnológica à disposição dos empreendedores e não se acarinha o ensino superior. Para além disso, a CMB não aposta na divulgação das potencialidades da região, não se anuncia fora de portas, preferindo “<i>vender-se</i>” a quem lhe garanta o sucesso eleitoral. Ainda no Desenvolvimento Económico, era suposta ter-se assistido à requalificação do Mercado Municipal – não vale a pena mencionar o estado em que o mesmo se encontra, assim como se aguarda que a <i>Cyber </i>Aldeia apareça um dia, quem sabe se nalgum transporte da prometida ligação de Beja ao Rio Guadiana. O Parque Urbano/Rural, à volta da Expobeja, também está só no papel e nas promessas, a fazer companhia ao “Parque dos Inventores”. Acreditem, caros leitores, que não estou a inventar nada. Está tudo no programa eleitoral votado pelos munícipes do concelho.

O arranque das obras nas escolas de ensino básico dão-nos igualmente uma ideia de como o PCP trata a <b>Educação </b>que nos prometeu. Os pólos de excelência em que se deveriam ter transformado as escolas do primeiro ciclo estão ainda sob construção, uma imagem de marca deste executivo, onde tudo está agendado, calendarizado, adiado.
Como adiado deverá estar o cumprimento da promessa de criação de um “Monte Pedagógico”, do “Laboratório de Ciência Viva”, do “Posto de Observação de Aves” e do “Observatório Astronómico”.

Na <b>Cultura</b>, a cidade perde-se entre uma Carta Cultural cujo calendário de elaboração se encontra ao sabor de algumas vontades, assim como o Conselho Municipal de Cultura deverá dar, parece, os seus primeiros passos no próximo ano, para só em 2009 conseguir articular alguma estratégia cultural para o concelho. A não ser que tudo seja “<i>cozinhado</i>” noutras paragens e apareça no referido Conselho só para aprovação, transformando-se assim aquele órgão como uma simples câmara de eco dos desígnios do PCP. Os meus receios não são infundados, pois este executivo não é virgem nessa prática.
Ainda na Cultura, aguarda-se que haja sinais do que virá a ser a prometida “Rede Concelhia de Museus”, o propagandeado “Museu da História Oral” ou a repetidamente anunciada “Requalificação e Remodelação da Biblioteca Municipal”. Estamos também à espera que surja a “Imagoteca” (seja lá isso o que for), o “Laboratório de Arqueologia” ou até mesmo que o Arquivo Histórico Municipal tenha as prometidas novas instalações, que ficarão, seguramente, perto do “Museu das Memórias” ou do “Museu de Azulejaria Antiga”. O Pax Júlia, que foi anunciada como a grande sala de espectáculos do Sul, continua a ser grande em tamanho, mas desviada de uma programação que lhe dê a centralidade regional que se exige a uma capital de distrito.

Tudo boas promessas, às quais vai faltando tempo para dar cumprimento.

Os dois anos que se seguem serão, pois, de intenso labor para este executivo.
Labor que não lhe deixará tempo para continuar a ocupar-se com aquilo que tem sido a sua prática e costume. Não haverá tempo neste executivo para colocar na prateleira quem se arrisque a discordar de alguma opinião emanada do escalão superior. Não terá o executivo comunista mais tempo para “<i>pôr no olho da rua</i>” quem, mesmo que profissionalmente competente, não se agachou à prepotência.
Ao executivo da CMB já não resta muito tempo para continuar a anunciar obras que não se realizam ou não têm fim. Não há mais tempo disponível neste executivo para se mandarem atoardas sobre a fusão do Politécnico com a Universidade de Évora ou de “dar uma mão” aos negócios da China e respectiva Plataforma Logística junto ao aeroporto.
Este executivo não pode perder mais tempo com invenções como o BAAL21 de nula utilidade, assim como deve aproveitar para abandonar a teimosa ideia das Águas do Sul e outras ruinosas municipalidades.
Não resta mais tempo aos governantes deste concelho para andarem entretidos em cosméticas sessões de propaganda e anunciadas como de <i>Município Participado</i>.

Com tanta promessa por cumprir, para trás muita coisa irá ficar nos dois anos que restam para este executivo terminar o seu mandato. Mesmo com a “envergonhada” conquista da maioria absoluta a meio do mandato, o centro histórico de Beja continuará à espera da sua revitalização, o Jardim Público deixará de ter público, as obras do POLI’s ficarão a aguardar acções de bom senso, as empresas continuarão a encerrar as suas portas, os estudantes do ensino superior irão procurar outras oportunidades, os veraneantes procurarão outras piscinas, as aldeias conhecerão o deserto, as ruas da cidade ficarão à espera de pessoas e os caminhos que levam à saída serão mais do que aqueles que podem trazer novas gentes.
A promessa de “Bej@ com futuro” ficará no papel.
Em nome da “Tradição – Mudança – Modernidade”, uma cidade adiada!

<p align=’right’><b><i>(crónica igualmente publicada em
<a href=´http://www.pracadarepublicaembeja.net´ target=´_blank´ class=´texto´>http://www.pracadarepublicaembeja.net</a> )</i></b></p>

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