Beja, quase uma cidade

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

António Revez

Antigamente era diferente. E não há muito tempo. Beja era uma aldeia, mais aldeia. Ponteada aqui e acolá com a nódoa do perfume burguês exalado nos fins-de-semana em Cascais ou no Estoril e que ficava agarrado à bota caneleira, juntamente com o cheiro das notas perdidas no casino e os odores misturados das putas. E como em todas as aldeias, as tribos sinalizavam a sua identidade na forma da silhueta e no espaço que remarcavam para se sentirem a pertencer a alguma coisa de familiar. A patilha comprida e a tal bota caneleira vestiam “Lois” no Barros, bebiam café no Luiz da Rocha e ostentavam o ócio nas intermináveis tardes de imperiais na Leitaria, recrutando aspirantes que faltavam às aulas no Liceu, e avistando os seus jipes lustrosamente mal estacionados. Não eram assim tantos e sabíamos onde paravam, com quem se davam, de que falavam. Nós sabíamos. Nós, os outros. Todos os outros, porque Beja era essencialmente composta por esta clivagem social, que era também um muito orgulhoso maniqueísmo provinciano. Eles, os “agrários”, que viviam nas belas vivendas dos anos 50 e 60 das avenidas novas da cidade, reaccionários e católicos, e nós, os “aldeões”, que nos acotovelávamos nas casinhas-miniatura do centro histórico da cidade ou nas casinhas de taipa e cal das aldeias vizinhas, e que ainda brincávamos às utopias e ao socialismo em versão catecista. Nós, que comprávamos cuecas e peúgas no mercado ali por detrás da Escola Industrial, e vestíamos “Loes” também no mercado, ou “Mako jeans” nos Armazéns da Cidade, e jogávamos snooker, bilhar e matraquilhos na Casa dos Arcos. E também muitos velhos, sempre houve, que pertenciam a tempo nenhum, e gozavam a miséria da velhice, reformados da escravidão, cansados, pendurados nos bancos ressonáveis do jardim público, cambaleados de vinho cantante nas tabernas, ou a disputar a sombra mexeriqueira nas Portas de Mértola. À noite existia o Clube dos Ricos, pequenos bares com motivos tauromáquicos e festas particulares para eles, e os bailes da pinha e os cafés atabernados para nós, e de quando em vez, envergonhadamente, as matinés de sexta na cave dos UFO´s, que acabavam antes da noite nos mandar para os dois canais de televisão. Havia ordem neste cosmos, cada um sabia o seu lugar, definido, definitivo e impermutável. Existia também inveja e rancor de muitos de “nós”, que copiávamos ou sonhávamos com o mundo “deles”, feito de risos gordos, copos, folia e despreocupação. Um mundo inalcançável, como o dos ricos nas telenovelas brasileiras, que acompanhávamos com fervor tão intenso quanto o futebol e seus folhetins e peripécias, exemplarmente documentados no imperdível “Domingo Desportivo”. Beja não era uma cidade. As cidades são democráticas, confluência efervescente de diversidades culturais e estéticas e intersecção de credos, convicções, rituais, costumes, e tipos humanos e sociais, numa experimentação dinâmica de comportamentos e atitudes que transgridem os códigos e as convenções. Beja não, era apenas de uma ruralidade mais polida, movimentada e abundante de tráfego comercial. Mas permanecia estagnada e sonolenta, já a lamentar-se de si e do seu fado incompreendido, fronteira nua com os barros de trigo e cevada, e com o horizonte despido que só servia para a fazer sentir mais desamparada. E “eles” e “nós”, com um muro de pequenez e sobranceria a dividir-nos, derrubado em socos nas noites de perdição.
Porém, dois acontecimentos trariam a democracia a Beja, já com o século XX a fechar-se para balanço. Duas instituições, democráticas. A Pandora e o Prisunic. A discoteca e o hipermercado. Uma e outra convocaram o azeite e a água a partilhar o mesmo caldeirão de forma indiferenciada, sem privilégios nem distinções, como iguais. Na discoteca moderna, ampla e eclética, acolhe-se a homogeneidade e a heterogeneidade e até se especializa o espaço dançável, com pistas de dança vocacionadas para épocas ou estilos musicais. A Pandora tinha isso tudo, era a festa da democracia em Beja. “Agrários” e seus derivados posteriores, “betos” e “queques”, conviviam e entrelaçavam-se com “aldeões”, “trolhas”, “broncos” e os recém-adoptados estudantes do ensino superior, que se disseminavam em múltiplos sub-estratos em função do curso. A sedução, a conquista e engate na discoteca Pandora, foram as verdadeiras experiências revolucionárias e progressistas da cidade de Beja. Derrubaram-se preconceitos e resistências morais e germinaram os primeiros casais e amantes interclassistas sem motivação financeira por estas bandas.
Mas a democracia estendeu-se da cumplicidade e torpores da noite para a luz do dia do consumo de tudo e mais alguma coisa; eis o templo pós-moderno: a grande superfície comercial. O hipermercado Prisunic concentrou-nos a “eles” e a “nós” num aconchegante e delirante carrinho de compras comum. O Prisunic tinha tudo, era tudo, e tinha-nos a todos lá, em inebriante consumo, em felicidade cortês na fila do fiambre e do queijo, em paciente simpatia na fila das caixas de pagamento.
O agrário barrigudo e folião que iniciara namoro com a maquilhada ajudante de cabeleireira, na curva insinuante dos <i>slows</i> terminais da Pandora, passeava agora de mão dada com ela pelo Prisunic, e ela encolhia-lhe os ombros na escolha do whisky. E Beja era quase uma cidade. E ficou quase uma cidade, até hoje.

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