Beja orgulha-se…

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

José Pires dos Reis

Quando por aí vejo certos cartazes a defender o slogan “Beja orgulha-se”, numa aparente vontade de enaltecer ou de rejubilar pela nossa qualidade de vida, não posso deixar de pensar no quanto a nossa Câmara vive de ilusões, ou pretende iludir os outros, ou, simplesmente (quem sabe) está conformada com o pouco que temos. Para quem não se recorda, nós somos parte integrante da União Europeia (UE) desde 1986. Já nessa altura éramos uma das regiões mais pobres da União. Passados que estão mais de 20 anos, continuamos na mesma. Porquê será?
Portanto, alguém está redondamente enganado, disso não tenho dúvidas, pois se é de orgulho que pretendem falar, deveríamos, então, estar a chorar lágrimas bem gradas pois embora nem tudo tenha sido negativo (temos que ser francos), muitas foram as más opções ao longo deste caminho. Nem é necessário recordarmos a UE, basta reflectirmos um pouco e olharmos para os lados, para os outros, para aqueles concelhos que há 20 ou 30 anos atrás nada tinham de diferente de nós e que agora já não reconhecemos ou, pior ainda, já invejamos por apresentarem um grau de desenvolvimento que gostaríamos que fosse nosso. É caso para questionar: onde anda o nosso orgulho?
Por isso, não me venham com a velha “rábula” de que a culpa é dos outros, quiçá dos sucessivos governos que sempre nos esqueceram. Não foram apenas os outros que se esqueceram desta região, nós mesmos não tivemos a capacidade de nos impor e de demonstrar que possuíamos a capacidade de fazer tão bem ou melhor que eles se para tal nos tivéssemos, verdadeiramente, empenhado. É isso que faz toda a diferença.
Como podemos falar em melhoria da qualidade de vida quando a nossa região tem cada vez menos empregos, menos empresas (e duma dimensão cada vez menor), menos poder de compra, menos população e mais idosa, menor capacidade de fixar os jovens que se estão a preparar e a qualificar para a vida activa, tem perdido protagonismo, apresenta níveis de estagnação nunca vistos, etc, etc. Enfim, a lista é longa e em lado algum encontro o conforto do tal “orgulho” que me querem fazer sentir.
Numa coisa terei que estar de acordo: afixar aqueles cartazes foi mais uma forma de desbaratar o erário público em devaneios e em auto-promoções encapuçadas, quando este dinheiro poderia representar mais um contributo, modesto, talvez, para o tanto que ainda há por fazer neste concelho.
Recordam-me, alguns, que já temos Alqueva, que vamos ter um aeroporto, que algum dia teremos melhores vias de comunicação e não sei que mais e que, assim, talvez isto melhore. Bom, digo eu, o facto de nos colocarem à porta um forno e uma pilha de lenha não significa que tenhamos farinha e fermento para podermos saborear o pão. Sem uma aposta séria no desenvolvimento económico desta região, por muitos fornos que nos dêem, continuaremos a ser, orgulhosamente, os parentes pobres da União Europeia.
Os responsáveis serão muitos, com toda a certeza, mas, em última instância, a culpa também recai sobre nós, os que sempre cá vivemos e que pretendemos continuar a viver amanhã, pois foram as sementeiras do passado que deram o fruto amargo que colhemos hoje.
É mais que óbvia a necessidade duma edilidade diferente na Câmara Municipal de Beja, que possua novas ideias e novos ideais, que saiba o que fazer e como fazer, e que conduza esta região por novos caminhos. São as nossas escolhas de hoje que determinarão o dia de amanhã.
Tenho esperança que a nossa gente, que sempre demonstrou vontade de zelar pela sua dignidade e por melhores condições de vida, reflicta e tome consciência desta estagnação, desta espécie de letargia que impera na nossa região e que só serve a quem não tem ambição para mais ou se conformou com o pouco que lhe dão, ou que lhe prometeram dar, algum dia. Não é este o melhor caminho e queremos mudar.

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