Beja e Santa Comba Dão

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

António Revez

Beja e Santa Comba Dão simbolizam e materializam a mais profunda e inconciliável clivagem nacional: os punhos esquerdos erguidos e os braços direitos estendidos. A primeira foi a capital do latifúndio e das suas opressões sociais e políticas e a sede histórica do comunismo “rural”, das suas lutas e conquistas mais radicais e utópicas. E ainda hoje resiste como a única mancha vermelha por entre as diversas eleições, orgulhosamente só face ao naufrágio continuado dos seus vizinhos camaradas: Évora e Setúbal. Beja pontifica no mapa da esquerda mais genuína e ortodoxa, apesar do desgaste e adulteração provocados por alguns dirigentes autodeserdados de uma herança valiosa mas terrivelmente exigente: honestidade, trabalho, competência. Apesar de acantonada a verdades repetidas pela rotina da crença, esta esquerda já perdeu o futuro mas remete-se constantemente ao passado para conseguir resistir no presente. É passadista à sua maneira, revoltada, mas sem revivalismos.
Santa Comba Dão nutriu valores de provincianismo cultural, conservadorismo moral, atrofia catecista e estreiteza paroquial a um ditadorzeco de frugais ambições, regrado no bafiento academismo coimbrão. Salazar foi a versão mais deprimente do fascismo, e Santa Comba Dão, as suas autoridades políticas e institucionais e a sua população, tratam Salazar como qualquer mãe beirã trataria um filho ido que se fez doutor notabilíssimo e duradouro governante da nação: com vaidade, afeição e saudade.
Por isso, a Câmara de Santa Comba Dão, com manifesto apoio popular, quer construir um Museu Salazar e um Centro de Estudos sobre o Estado Novo. E nem sequer é ideia original do actual presidente social-democrata, mas sim do seu antecessor socialista. E é ideia muito legítima, diga-se, e também interessante. Segundo o edil João Lourenço, o “conceito” do museu inclui a construção de uma sala dedicada à luta anti–fascista e um centro de documentação onde estarão disponíveis milhares de livros e documentos. Bem, parece que alguns objectos pessoais do ditador, como o estojo da barba, uma mala de viagem ou a cama onde faleceu também estarão expostos. Mas significa isto erguer um santuário de adoração de Salazar? Significa isto criar um pólo de celebração saudosista e romaria fascizóide? Ou, mais delirantemente ainda, significa isto que a autarquia santacombadense quer criar “uma organização centrada na propaganda do regime corporativo-fascista do «Estado Novo» e do ditador Salazar”, tal como consta da petição que a União dos Resistentes Antifascistas Portugueses (URAP) está a promover? De acordo com a URAP, o museu seria uma organização que perfilharia a ideologia fascista e assim sendo incumpriria o Artigo 46º, nº 4, da Constituição.
Devia a URAP, que acolhe muitos comunistas da velha guarda, em vez de tentar impedir a construção do museu Salazar, explicar a todos os que de fraca memória padecem que entre as liberdades conquistadas com o 25 de Abril, destaca-se uma pela qual muitos sofreram e morreram nas prisões do Estado Novo: a liberdade de expressão. Mesmo que essa expressão ofenda os valores democráticos, os negue nos seus pressupostos. Mesmo que os simpatizantes de Salazar e do salazarismo usem um museu como destino de peregrinação. É um direito que lhes assiste. Tal como assiste à URAP, e a quem assim o entender, exprimir-se publicamente contra essa possibilidade, barafustar, protestar. Mas não impedir. É que a nossa Constituição limita a liberdade de associação por motivos ideológicos, mas não considera esses motivos para limitar a liberdade de expressão.
A Câmara de Santa Comba Dão quer fazer cultura, ou fazer turismo, com o seu herói local que chegou longe e tão celebremente. A população do sítio estima a ideia com a força e intensidade dos incógnitos que precisam dos heróis fantásticos para se projectarem ou identificarem. A democracia tem destas coisas, dá–se ao cúmulo de permitir que se perpetue a memória dos que aguentaram meio século a evitá-la.
Não deveria a Câmara Municipal de Beja (CMB), por cultura, por turismo, ou por outra mais trivial razão, criar o Museu da Reforma Agrária e fixar memória “viva” da mais bela e pungente utopia que se semeou em solo alentejano? Um museu de filmes, documentários, fotos, artigos, ensaios, estudos, legislação, máquinas, objectos, e infinitos relatos, testemunhos e tantos “pedaços” do dia-a-dia das UCP´s e do processo da Reforma Agrária. No meio de tantas embrulhadas “museológicas” estéreis, e aproveitando o vencimento que paga a pretensos “especialistas” na matéria, não deveria a CMB dar uma nova “realidade” a uma causa que mobilizou o país “progressista”? O povo da terra certamente apoiaria e se algum grupelho de bandalhos salazaristas quisesse impedir a coisa, talvez não chegassem cem militares da GNR.

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