Beja e os mercados

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Carlos Monteverde

No feriado de 1 de Dezembro fui passear pela nossa cidade de Beja, onde algumas pessoas também aproveitavam o comércio aberto para fazer compras. Felizmente não eram só as lojas chinesas que estavam abertas. Acabei também por comprar, como prémio à luta quase inglória de um comércio que vai perdendo a sua batalha de sobrevivência. Como sempre, fala-se muito nas campanhas eleitorais, mas faz-se pouco pela solução dos factos. E ao regressar a casa, lá estava o parque das grandes superfícies a abarrotar de automóveis, numa opção clara de que as pessoas vão cada vez mais trocando a animação que podiam dar às ruas e ao comércio das cidades pela frequência das grandes superfícies. Somos todos nós que vamos ajudando os grandes e sufocando os mais pequenos, no âmbito desta micro economia das cidades, como acontece com os chamados mercados que regem a macroeconomia dos países e a economia mundial.
Ninguém sabe quem são as individualidades que estabelecem as regras dos mercados. Ou se calhar sabemos sem conhecer. Porque, se calhar, até são pessoas, quando ouvimos dizer que os mercados estão nervosos ou preocupados com Portugal e a Irlanda, que são países pequenos. Nunca os vemos nervosos com a Alemanha ou com os Estados Unidos.
Mas eu acho que a culpa é principalmente nossa, por nos pormos a jeito para depender deles, porque de facto tenho cá para mim que se gastássemos só o que ganhamos não tínhamos que andar a pedir dinheiro emprestado a ninguém e a pagar os juros que nos são impostos. Mas fomos todos atrás dos bancos que emprestavam dinheiro para tudo, desde carros a viagens, de ordenados adiantados a férias paradisíacas, e para comprar casa e até acções na Bolsa. E não nos lembrarmos de várias coisas importantes. É que se forem os senhores Joe Berardos a não pagar os empréstimos, tudo bem que são pessoas importantes. Agora nós, temos mesmo de pagar, porque não somos importantes. E se os bancos ficarem sem dinheiro, logo os governos ou o BCE mandam dinheiro para os senhores banqueiros. Se forem pequenas ou médias empresas, fecham porque são as regras do mercado. Tudo isto se passa em países democráticos, onde há eleições e governam os mais votados pelo povo. Que para nos governarem melhor se governam a eles primeiro, às famílias e aos amigos. E com reformas atempadas e douradas, não vá o diabo tecê-las.
No meio de regabofe dos dinheiros europeus, os gregos já iam nos 15 meses de salários anuais. Na Irlanda, a bolha imobiliária rebentou quando milhares de irlandeses não conseguiram pagar os empréstimos da banca, devolvendo milhares de apartamentos aos bancos. Em Portugal, o problema está mais de acordo com a denúncia do próprio FMI. Que esta crise tem principalmente a ver com a desigualdade da distribuição de rendimentos, que no nosso país é a mais elevada da Europa. E vai continuar a acentuar-se, quando vemos as grandes empresas a antecipar juros para não pagar imposto sobre estas mais valias, com a conivência inaceitável do PS, ou quando o sr. Faria de Oliveira diz que os quadros da CGD não podem baixar os seus salários senão fogem todos. Mas fogem para onde, se é em Portugal que os gestores ganham mais em todo o mundo? Estes gestores brincam com os portugueses de uma forma impune. Como os gestores da GALP continuam a gozar connosco, com as subidas dos combustíveis, apesar dos lucros fabulosos que apresentam.
Sobre estas roubalheiras os mercados não se pronunciam. Mas saltam a terreiro se ouvem falar em diminuir os ordenados obscenos destes gestores, como aconteceu no Banco de Portugal, onde os cortes têm de ser autorizados pelo BCE.
Como não deixa de ser engraçado o alarido provocado pela compensação aos salários mais baixos, que o Governo dos Açores anunciou. São os salários mais baixos que preocupam o actual Presidente da República, entre outros, e que por acaso até recebe três pensões de reforma, além do seu salário.
De tudo isto resulta que este país, que exultou com a revolução de Abril, vai percebendo que a melhoria da qualidade de vida que de facto tivemos resultou mais do dinheiro que “os mercados da Europa” nos foram emprestando do que da riqueza que nós produzimos. Hoje estamos atados de pés e mãos. Mas não condenados. Temos o exemplo de outros países, que renasceram das cinzas, como a Alemanha do pós-guerra, pelo trabalho e criação de riqueza de todo um povo empenhado. E temos o exemplo de outros países, com uma organização social e política mais justos, onde as populações vivem melhor e sem dependerem dos “mercados”, como são os países nórdicos.
Em Portugal não há sequer um estímulo nacional à compra de produtos portugueses, que nos podiam poupar uns milhões de euros em importações e evitar falências e mais desempregados.
Em todas as cidades, como também em Beja, são as pessoas que falam na falta de apoio ao comércio as primeiras a encher as grandes superfícies, que empregam algumas dezenas de jovens a ganhar o salário mínimo e aumentam os lucros de milhões dos grandes empresários.
Portugal e muitos países da Europa vão ter de viver com menos carros topo de gama, com menos telemóveis e mensagens, com menos roupas de marca e vão ter de trabalhar mais. Para isso, as pessoas têm de ter direito ao trabalho, planificado por uma classe política mais empenhada e mais séria. Com menos carros de serviço, menos cartões de crédito, menos telemóveis e menos arrogância. Com melhores governos e melhores oposições.
A grande verdade, a que não vamos poder fugir, é que vamos de ter de viver com o que temos, que é bem menos do que tem parecido nos últimos anos.

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