Até quando

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

António Lúcio

director da Rádio Pax

O que faço eu aqui nesta casa enorme desocupada de gente, sentada neste sofá? Uma manta a cobrir-me as pernas até aos tornozelos, televisão à minha frente mas eu não a vejo nem a escuto, acolá o quadro que me ofereceste, perto da janela um vaso com avencas que comprei na florista, o que estarás a fazer, olho a fotografia onde estamos os dois a sorrir, oiço a chuva bater suavemente na persiana da janela, o vento fininho traz-me uma leve melancolia, está frio mas a lareira vazia, o Janeiro tem vindo frio, o que estarás a fazer, apetecia-me ter agora vinte anos e uma vida pela frente, não precisava de ti porque não te conhecia, os cortinados escondem a rua molhada e de ti nem uma aragem. Estou cansada de ficar à tua espera. Cansada. Horas infindas à tua espera. Vinte e dois anos de solidão, praticamente vinte e três, amanhã vinte e três anos que te conheci, malfadado dia, de certeza que nem te vais lembrar, nunca te lembras. Amanhã não vais estar comigo porque ficas a trabalhar até mais tarde, mas prometeste que hoje jantavas cá em casa, passavas o serão comigo, dez e meia da noite e de ti nem uma aragem. Vinte e dois anos, praticamente vinte e três e eu ainda acredito nas tuas promessas, nas tuas mentiras, tenho sido tão estúpida, tão burra, burra é o que eu sou, sim, admito. A minha mãe sempre com razão a teu respeito.
– Deixa-o, ele não te merece, filha!
Mas não, aqui a filha nunca deu ouvidos a ninguém, sempre o defendeu: porque ele tem muito trabalho, porque está com os amigos, porque o trânsito é muito, porque está doente, porque está frio, porque o telemóvel não tem rede, desculpas, sempre desculpas para esconder a realidade. Burra.
– Celeste, ele não gosta de ti!
Vinte e dois praticamente vinte e três, uma vida. Todos os dias de uma vida a sonhar com o dia de uma vida os dois, partilharmos a mesma televisão, o mesmo sofá, fazeres-me chá de limão quando constipada, acordar ao teu lado, sentir o teu after-shave, o teu cheiro, sentir-te, sentir-te meu. Vinte e dois anos praticamente vinte e três e tu:
– Preciso de tempo.
Amanhã vinte e três anos e tu precisas de tempo. Há ocasiões em que me pergunto até quando vou aguentar esta situação. Até quando vou esperar por ti. Eu já não tenho tempo, esgotei há muito esse tempo, quarenta e dois anos, quarenta e três em Fevereiro, ainda vou a tempo de refazer a minha vida, encontrar alguém que goste de mim ou, pelo menos, me dê atenção, quem sabe, se Deus me ajudar, não poderei ainda ter um filho, quem sabe, dois. O senhor Amílcar do segundo esquerdo convidou-me para ir ao cinema, ver um filme qualquer que estreou há pouco tempo e eu a recusar, a dizer-lhe que não, que estava ocupada. De vez em quando um ou outro colega do escritório a convidar-me para jantar e eu só desculpas. Desde o dia em que te conheci só tenho olhos para ti, não olho para outros homens, nunca existiu outro homem, só tu. Conheço de cor e salteado todos os sinais do teu corpo, as tuas fraquezas, os teus medos, as tuas virtudes, os teus defeitos, pequenos gestos teus quando ficas nervoso, nem dás por isso, aposto que ninguém te conhece melhor do que eu, nem a tua mulher, nem o teu filho, nem os teus pais se fossem vivos te conheciam melhor do que eu. Estou cansada, apetece-me ir para a cama, deitar-me, assim, vestida, tapar-me toda com o cobertor e chorar em silêncio, mas não, continuo aqui, sentada neste sofá, diante da mesa composta com talheres finos e velas de cheiro, o bacalhau à Gomes de Sá já frio, o vinho branco a aquecer, não muito porque o Janeiro tem vindo frio, fecho a televisão, folheio uma revista, olho o relógio, levanto-me do sofá, vou à janela, automóveis, as luzes do minimercado, olho o relógio, vou à porta, pego no telemóvel, ligo-te, não atendes, de ti nem uma aragem, nem um telefonema, nem uma justificação, ouço passos no andar de cima, no segundo esquerdo, quarenta e dois anos, quarenta e três em Fevereiro, agora passos nas escadas, estou cansada, ainda vou a tempo de refazer a minha vida, vou tirar da parede o quadro que me deste, cortar ao meio a fotografia onde estamos os dois a sorrir e deitar a tua metade no lixo, batem à porta, espero que não sejas tu, Deus queira que não sejas tu, não quero que sejas tu. Com um pouco de sorte o senhor Amilcar, do segundo esquerdo, a convidar-me para ir ao cinema ver um filme qualquer que estreou há pouco tempo.

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