Até já Manel

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Miguel Rego

arqueólogo

No deve e haver da vida, sobra-nos o silêncio da solidão. Ao longo do caminho vai-nos arrastando uma chama, por vezes muito pequena, que pouco a pouco se esbate num sem número de engulhos, de desconfianças, de mentiras. De um sem número de medos, muitas vezes de nós próprios, por não querermos ferir aqueles que muito queremos. Há momentos em que olhamos para as mãos e agradecemos não ter que nos encontrar com ninguém para não ter que dizer que mente quando nos acusa, infundadamente, do que é que quer que seja, nas costas. Já me perguntaste se foi assim? Se foi isso que eu disse? Se eu tomei determinada decisão em função de um interesse pessoal ou na necessidade de marcar uma atitude? Essas perguntas são ingratas… A quem as queríamos fazer, sem ferir, não as fazemos porque esse alguém tem medo que o confrontemos. Não por ter que reconhecer que anda a mentir. Mas por perceber que afinal o que andava a dizer era mentira. Que era uma armadilha que o engoliu a ele próprio. E que foi apanhado sem querer. “Deixa-os”, disseste por entre a conversa, e bebemos mais um gole de tinto no meio daquela feijoada que não podias comer… “Ri-te de todas as mentiras”. Disseste. Como da própria vida, naquilo que ela tem de mais ridículo: encolher-se perante a morte. Acrescentei. E por isso vou contigo Manel. Mais um bocadinho de mim apaga-se contigo. Mais um pouco deste bocado de corpo apaga-se no silêncio dos teus lábios, no olhar matreiro dos teus olhos, que só verei nas recordações das minhas palavras, frente ao espelho, quando faço a barba. E recordarei, seguramente, o cru das manhãs, na esplanada do Café Guadiana; ou nos jantares da Ovibeja; ou da tua raiva por entre os meus risos a olhar o moinho e o depósito de água da Corte Gafo; ou o rirmos a bandeiras despregadas da bailarina para o Sócrates; ou do chá sem açúcar; ou dos sábados eternos com as compras do mercado para levar para casa, entre o jornal “Expresso”… Em tudo se esvai um bocadinho de mim, no caminho que levas por diante. Não sei porquê, recordo-me do Colaço, de Almodôvar. Talvez por estar de volta a Castro. Talvez pela força das palavras que vocês tinham. Talvez pela franqueza e pela coragem. Recordo-me, agora. Também ninguém me pergunta porquê. Para quê? Como transportamos connosco este insano pesar da distância… Porque é que, eternamente, esquecemos que o amanhã pode não ser nunca mais. Afinal, não nos empanzinámos com as migas, neste Inverno. Era para ser um dia destes. E será, deixa. Lá estaremos a rir e a subir, devagarinho, de braço dado, a rampa do Castelo de Mértola. Para olhar os não sei quê das torres. Não me lembro, mas tu sabes o nome daquela passarada toda, Manel Madeira. Depois contas-me. Devo-te um beijo de saudades. Até um destes dias.

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