Assassinato na Noruega e xenofobia “de baixa intensidade”

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Alberto Matos

dirigente do BE

O assassinato em massa na Noruega – cerca de 90 vítimas, sete no atentado bombista de Oslo e mais de 80 no acampamento de jovens do Partido Trabalhista, na ilha de Utoeya – surpreendeu muita gente. Como foi possível tamanha explosão de violência na terra do Pai Natal e do Prémio Nobel da Paz?
A surpresa é relativa, não tanto sobre a dimensão do massacre, mas quanto à erupção da violência numa sociedade onde o racismo em geral e a islamofobia, em particular, são alimentados política, cultural e mediaticamente.
Tablóides como o “VG” (diário de maior circulação que, por ironia, teve a fachada destruída pela bomba em Oslo) enchem primeiras páginas com a exibição da nacionalidade de qualquer criminoso, desde que não seja louro e ocidental – qualquer semelhança com jornais portugueses e europeus não é mera coincidência. Os mesmos jornais que fingem não ver as Canárias e o Mediterrâneo transformados em cemitérios de imigrantes!
O caldo de cultura deste crime abominável é o clima de xenofobia latente, “de baixa intensidade”, com ar moderado e respeitável. São as políticas económicas liberais que alimentam o descontentamento social e a xenofobia.
Pode parecer estranho que isto aconteça no país mais rico do mundo e com uma situação económica estável, à custa dos rendimentos do petróleo. A Noruega desenvolveu muito o Estado Social que, até um passado recente, garantiu um certo equilíbrio social. Com o triunfo do neoliberalismo a nível global, este equilíbrio é cada vez mais difícil.
Numa sociedade em que os direitos laborais ainda fazem parte da realidade, a imigração é o elo mais fraco. São comuns os casos de abusos laborais contra imigrantes, assim como a incapacidade dos sindicatos de os organizar, ultrapassando a lógica nacionalista. A autoridade para as condições de trabalho “Arbeidstilsynet” não tem inspectores suficientes para o enorme número de denúncias feitas por trabalhadores estrangeiros. Mais uma vez, qualquer semelhança com Portugal não é mera coincidência.
Os partidos “høyre” (direita tradicional) e o FRP (Framstegpartiet – Partido do Progresso) têm feito oposição ao governo do Partido Trabalhista “Ardeiderpartiet” com base num discurso de restrição à entrada de imigrantes e de assimilação forçada dos que já vivem na Noruega. Um traço ideológico destes partidos é a identidade religiosa que tentam impor a todos os residentes. O cristianismo como pilar cultural e social é, desde 1978, uma bandeira do FRP – o partido em que o assassino é filiado.
É óbvio que este não actuou isoladamente e o seu crime deve ser investigado e punido em toda a dimensão europeia. O massacre norueguês não é, obviamente, fruto isolado de “um louco” que agora se quer fazer passar por inimputável – mais um! E se Durão Barroso consta da sua lista de mais de 10 mil portugueses a abater (vá-se lá saber com que cumplicidades!), imagine-se a razia à esquerda…
Hitler também começou por ser ridicularizado como “louco”. Está clara a razão de várias Constituições (como a alemã e a portuguesa) proibirem, embora sem consequências práticas, os partidos de ideologia fascista. Por essa Europa fora, todos os PNR rejubilam, mais ou menos discretamente, com o massacre de Oslo.
O pior de tudo seria cedermos aos objectivos do assassino e seus mandantes: transformar este crime num pretexto para o reforço do Estado policial, cujas primeiras vítimas seriam os imigrantes. A democracia defende-se sempre com mais democracia!

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