As sombras da luz

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Vítor Encarnação

É incontornável. Acredite que fiz os maiores esforços para passar ao lado do tema e não o trazer aqui a lume, que é como quem diz à Luz. Apelei à minha capacidade de raciocínio, tentei a indiferença, o distanciamento, a Filosofia, comecei até a ouvir a Antena 2, mas não consegui. Neste momento, tudo o que rodeia a minha existência não me dá margem de manobra e também eu fui engolido pelo sorvedouro de emoções em que o caso do desaparecimento da mocinha inglesa se tornou.
Desde Agatha Christie que mistérios vindos de terras de Sua Majestade não eram consumidos com tal voragem e interesse. Penso até que este caso encaixa perfeitamente na estrutura clássica da escritora inglesa: um crime cometido no seio de uma família de alta sociedade britânica em férias no estrangeiro exótico; portas e janelas fechadas; um corpo que desaparece; polícias locais incapazes. Como seria simples e romântico se num voo da Easyjet, obviamente com acesso pela zona VIP, aterrasse em Faro um homenzinho chamado Hercule Poirot mais as suas célulazinhas cinzentas! E como seria espantoso se, dois dias depois, logo após o chá das cinco, no quarto do Ocean’s Club de onde a Maddie desapareceu, ele juntasse toda a gente envolvida incluindo a vizinha inglesa velhota, os cães pisteiros, os assessores de imprensa, o empregado que serviu nessa fatídica noite as catorze garrafas de vinho, o urso de peluche, um emissário do Papa, um jornalista da Sky News a pronunciar a palavra arguido com o seu british accent, o gestor dos fundos de ofertas milionárias incluindo os lucros obtidos com as pulseirinhas e balões coloridos e ainda as moedas da caixinha de esmolas da igreja da Praia da Luz, um representante do silêncio absoluto do Governo português face ao apoucamento feito pelos beefs das nossas instituições, um extenso grupo de criminalistas, psicólogos forenses, pedopsiquiatras, especialistas em expressões faciais e ex-inspectores da Judiciária, a centésima nonagésima oitava velhinha a dar dois beijos na Kate McCann no dia dezoito de Maio, o homem do assobio quadrado à chegada de Kate à Polícia Judiciária de Portimão, a doméstica que verteu mais lágrimas pelos McCann no programa da Júlia Pinheiro, o amuado representante da Associação que disse que cá em Portugal também há cães portugueses que detectam odor de cadáver não sendo portanto preciso ir buscá-los a Inglaterra, o aliviado chefe do laboratório português onde poderiam ter sido feitos os testes de ADN e ainda bem que não foram, pois tal não seria, o mecânico que fez uma revisão ao carro dos McCann e achou qualquer coisa de estranho no óleo e ainda o jornalista que escreveu o artigo um milhão sobre o caso – japonês por sinal.
O famoso dramaturgo inglês Shakespeare dizia que todo o mundo é um palco, os homens e mulheres meros actores que têm as suas saídas e as suas entradas. De actores, entradas e saídas estamos falados. O palco ficou montado na Praia da Luz assombrado por fantasmas.
Se querem saber, eu acho que só há um homem capaz de acabar com este confronto entre portugueses e ingleses. Não, não é nenhum polícia, diplomata, detective ou político. É o Ricardo da Selecção. Com ou sem luvas, só ele pode resolver isto.
Pobre Maddie.

Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on linkedin
LinkedIn
Em Destaque

Últimas Notícias

Role para cima