As leis da Natureza

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Maria Fernanda Romba

Nos últimos meses, temos vivido tempos conturbados. Como se não bastasse a crise nacional a que já nos íamos habituando pelo simples facto de não se vislumbrar o tal buraco por onde possamos sair dela, ainda fomos atingidos pela crise internacional, com efeitos devastadores. O desemprego atingiu uma taxa que ultrapassou já os dois dígitos, o que para além dos graves problemas sociais associados, faz aumentar ainda mais o déficit das contas públicas porque obriga a um agravamento da despesa com os respectivos apoios. Perante tal inevitabilidade, e face às ameaças de Bruxelas se não forem encontradas formas de equilibrar as contas, avançou-se com o congelamento dos vencimentos da Função Pública, medida sempre polémica porque atinge todos. Os que ganham muito e os que ganham pouco. E quem já ganha pouco, perdendo poder de compra, ficará a ter ainda menos.
Para agravar ainda mais o clima de instabilidade que se vive, jornalistas e magistrados assumem protagonismos nunca antes vistos, com o segredo de justiça ou a falta dele, as escutas telefónicas e a liberdade de imprensa ou de expressão a marcarem a agenda política. As faces “ocultas” deixaram de sê-lo, se é que alguma vez o foram, e nas páginas dos jornais fazem-se manchetes com a devassa da vida de muita gente. Não sei se ficámos a saber o que se pretendia, mas todos agora sabemos que no léxico dos políticos da melhor estirpe existem palavras iguais às do léxico do comum dos mortais. Ao menos nisso somos iguais. E isso, longe de nos afastar, acho que nos aproxima. Tiro ao lado.
No Parlamento, a discussão do Orçamento pôs as hostes ao rubro, transformando deputados em autênticos degladiadores, prontos a enfrentar a fera mal esta entre na arena. E quando após intermináveis reuniões preparatórias se antevia, finalmente, a possibilidade do almejado acordo, em nome dessa coisa chamada interesse público, eis que a Lei das Finanças Regionais vem estragar tudo. E lá se vai o acordo. E o interesse público. Tudo por água abaixo. Reiniciada a liça, esgrimem-se argumentos de forma acalorada. O interesse público manda que não se afecte mais dinheiro para as finanças da Madeira, porque as outras regiões do país têm índices de desenvolvimento muito inferiores e não podem continuar a ser preteridas na distribuição do bolo nacional.
Estavam as coisas neste ponto, ou seja, achávamos nós que pior não podiam ficar, quando as portas do céu se abriram, de repente, alguém se esqueceu de as fechar e por elas escorreu, sem conta nem medida, toda a água que lá havia. As ruas viraram rios (ou será os rios que haviam virado ruas?) e transformaram-se numa torrente caudalosa de pedras e lama que tudo arrastou. Árvores, casas, carros, destroços, pessoas. Um inferno no paraíso que era a Madeira.
Nos dias que se seguiram chorámos a enorme tragédia que assolou a Madeira e queríamos, todos, ter podido embarcar no primeiro avião para ajudar a enterrar os mortos, tratar dos feridos, dar roupa, casa e comida aos desalojados e iniciar o processo de recuperação. Para que as flores florissem de novo, em todos os caminhos. Como a esperança. Uma enorme onda de solidariedade alastrou e fez-se ao mar, até chegar à ilha. E aí demos, todos, as mãos e descobrimos que as leis da Natureza mandam mais que as leis dos Homens. E são, mesmo, capazes de domar leões e amaciar corações.
Neste momento, o Governo, a braços com o PEC (Plano de Estabilidade e Crescimento) ouve os partidos e os restantes parceiros na esperança de conseguir o indispensável apoio para aprovar medidas que consigam reduzir despesas e aumentar receitas para que o país se aguente. Adivinham-se tempos difíceis com a contestação a aumentar ainda mais, com os atingidos (que ao fim e ao cabo vamos ser todos) a clamar que “tirem aos outros mas a mim não!”. Uns porque ganham pouco e sentem que não lhes podem tirar mais, os outros porque deixam de poder investir e sem investimento não há crescimento.
Razões à parte, espero que não seja necessário um dilúvio, um tremor de terra ou qualquer outra catástrofe para nos entendermos e darmos as mãos. Em nome do interesse de todos.

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