Arrogância ou subserviência

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Rodeia Machado

técnico de segurança social

O título que dei a esta crónica, ou artigo de opinião, tem que ver com vários factos recentemente acontecidos e que são conhecidos da opinião pública.
O sector da saúde em Portugal tem sido atingido por vários acontecimentos, uns de carácter dito reformador do sistema de urgências e outros de carácter estrutural do sistema de urgência/emergência. O primeiro coordenado directamente pelo então ministro da Saúde Correia de Campos e o segundo, embora sob a orientação das políticas do ministério, coordenado pelo INEM – Instituto Nacional de Emergência Médica, centrado na pessoa do seu presidente, o dr. Cunha Ribeiro. No primeiro caso, para a reestruturação das emergências, foi criado um grupo de trabalho que enunciou um conjunto de situações a levar a efeito antes de se fechar qualquer urgências, mas tal não foi seguindo pelo ministério, criando as situações que são por demais conhecidas de toda a gente.
Poderíamos evocar aqui as decisões do Grupo de Trabalho, ou Equipa de Missão, sobre a reestruturação das urgências, mas para bom entendedor meia palavra basta.
Estas situações levaram a que as condições, que não sendo as melhores ainda pioraram, nomeadamente no aumento das distâncias até à unidade de saúde mais próxima, insegurança da população que se sentia protegida com o que tinha, falta de meios para os transportar até ao hospital mais próximo, enfim uma quantidade de situações que potenciaram o destacamento e fizeram com que as populações se manifestassem (eu digo que as populações têm direito à indignação) e que reclamassem, posteriormente, mais e melhores condições de saúde.
Considerar tais atitudes como novas manobras político/partidárias é, no mínimo, ser arrogante e pouco conhecedor das situações, ou seja, é ser subserviente aos poderes instalados, não querer enfrentar a realidade. Mas, sobretudo, o mais grave é querer apenas afirmar que a sua verdade é a única verdade.
Creio que ninguém contesta que se façam as reformas e reestruturação que há a fazer. Isto quando elas são para melhorar as condições da vida, neste caso concreto, na área da saúde, mas não querer ver o que se passa à sua volta é subserviência a mais e ignorância a menos. Por outro lado, a reestruturação do Sistema Integrado de Emergência Médica é algo que deve ser feito com a participação de todos os actores que dele fazem parte, ou seja, em primeiro lugar o INEM, a Liga dos Bombeiros Portugueses, enquanto Confederação das Associações Humanitárias e Corpos de Bombeiros, Autoridade Nacional e Protecção Civil enquanto entidade que detêm a tutela dos Bombeiros, as forças policiais e demais entidades a quem está confiada a emergência.
Estas primeiras três entidades, INEM, Ligas dos Bombeiros e Autoridade Nacional, estabeleceram um acordo em meados de 2007, onde se colocava “preto no branco” a reestruturação do sector, nomeadamente com o estender das acções de cooperação na área da urgência/emergência a todos os corpos de bombeiros, o que actualmente não acontece, pois dos 434 corpos de bombeiros existem cerca de 80 que não têm qualquer protocolo com o INEM, o que cria dificuldades acrescidas para os bombeiros, mas sobretudo para as populações que servem.
Implica esse acordo que se reestruture o sistema e seja criada uma Rede Nacional de Ambulâncias de Emergência, onde se determine qual o papel do bombeiros, a sua importância perante a comunidade e a sua experiência feita ao longo dos anos. Por outro lado, que se aproveite como factor de economia de meios a rede de ambulâncias que os bombeiros já possuem.
Esta foi a decisão, mas a prática foi outra. Começou o INEM a colocar algumas unidades (ambulâncias), duplicando custos e não assegurando devidamente os técnicos para tripular essas unidades, o que criou a situação que também é por demais conhecida.
Mais uma vez, a arrogância de um responsável por esta área não teve em conta as realidades e acabou por criar ainda mais dificuldades, tendo contra ele não só as populações mas também os bombeiros.
E como não há duas sem três, evoco nesta minha crónica, a resposta a quem me acusa de arrogância e ignorância sobre as matérias da saúde.
Gostaria apenas de dizer que não é pelo facto de ser licenciado em medicina que se conhecem com profundidade as situações.
Não pretendo dar lições a ninguém sobre tais questões, mas também não as recebo de quem não conhece com profundidade as situações ou então ignora-as em nome de uma certa arrogância do cargo e subserviência decorrente do mesmo.
Nos dois primeiros casos, o tempo e as justas reclamações deram razão às populações e aos bombeiros pelo que já foram remodelados. O resto fica com a consciência de quem não sabe perceber os tempos que correm.

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