Ao fundo!

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Paulo Arsénio

eleito pelo PS - AM Beja

Quando era mais novo, a batalha naval era um dos meus jogos preferidos. Muitos dos intervalos na escola eram aproveitados para, com uma simples folha, arrancada de um caderno de argolas que estivesse à mão, desafiar um colega de turma e começar a fazer pontaria.
Lá tentava “esconder” o melhor possível os três submarinos e esperar que o adversário não me acertasse no tão precioso porta-aviões, verdadeira jóia da coroa da frota. E quando o nosso opositor esgotava a série de três tiros e não conseguia mais do que acertar na água, era a vez do nosso contra-ataque e do renascer da esperança de atingir um navio da sua frota. Quando o porta-aviões do inimigo ia ao fundo, era uma festa! Muitas vezes venci, outras tantas perdi.
Felizmente que não joguei na ocasião com nenhum membro do actual Governo. Não teria ganho certamente partida alguma. A pontaria deles, a observar pela proposta de Orçamento do Estado que está sobre a mesa, é qualquer coisa de extraordinário. Senão vejamos alguns exemplos:
– Corte integral nos subsídios de férias e de Natal dos funcionários públicos por tempo indeterminado. Tiro nos funcionários públicos, mas também no pequeno comércio que se vai ressentir indirectamente, e de que forma, desta medida.
– Continuação do corte salarial que vinha do ano anterior e redução, para metade, do valor de retribuição por horas extraordinárias. Tiro nos funcionários públicos.
– Redução significativa do valor de compensação para trabalhadores que sejam colocados em situação de mobilidade especial. Tiro nos funcionários públicos.
Funcionários públicos ao fundo!
– Aumento do IVA da restauração para os 23%. Tiro na restauração.
Restauração ao fundo!
– Aumento do IVA de vários produtos de 6% para 13%, de 13% para 23% e de 6% para 23%. Tiro nas famílias portuguesas.
– Aumento do IVA na electricidade e no gás natural (desde 1 de Outubro deste ano) de 6% para 23%. Tiro nas famílias portuguesas. Tiro nas empresas.
– Aumento brutal do preços dos transportes públicos. Tiro nos cidadãos, estudantes e trabalhadores, que precisam de utilizar os meios de transporte público para cumprirem as suas obrigações diárias.
Famílias portuguesas ao fundo! Classe média ao fundo!
– Redução das deduções de saúde de 30% para 10% em sede de IRS.
– Não actualização dos escalões de IRS de acordo com a inflação.
– Redução para metade das deduções com aquisição de habitação própria permanente, em sede de IRS;
– Redução drástica das isenções de IMI. Passam de oito para três anos;
– Redução do valor de pensão de alimentos a poder ser abatida em IRS;
– Redução da dedução especifica dos reformados dos actuais 6.000 euros até aos 4.104 euros.
Vários tiros nos contribuintes.
Contribuintes cumpridores ao fundo!
– Redução de vários benefícios fiscais, incluindo taxas reduzidas, em sede de IRC que aproveitavam sobretudo as pequenas empresas e as empresas que operam no interior do país.
Tiro nas pequenas e médias empresas.
Tecido empresarial do interior ao fundo!
– Privatização do Canal 1 da RTP.
Tiro no serviço público de televisão no nosso país.
Canais de televisão, todos, ao fundo!
– Diminuição dos direitos de quem trabalha em caso de despedimento.
Tiro nos desempregados.
Coesão social ao fundo!
– Diminuição das transferências do Orçamento Geral do Estado para a saúde e para a educação em valores muito acima dos acertados com a “troika” no memorando de entendimento assinado.
Tiro na qualidade do Serviço Nacional de Saúde e na escola pública, nos seus profissionais e utentes.
Serviço Nacional de Saúde ao fundo!
Escola Pública ao fundo!
No fundo, no fundo, o actual Governo não falha um tiro como se demonstra neste pequeno resumo. À batalha naval o primeiro-ministro em exercício, o dr. Miguel Relvas e o seu adjunto, o dr. Pedro Passos Coelho, são formidáveis!
Com eles é tudo ao fundo. Famílias e empresas.
A economia.
Portugal ao fundo.
“Temos de empobrecer”, diz o adjunto. A tão bem sucedida receita grega a ser aplicada em Portugal.
Dia 24 de Novembro é dia de resistir. De dizer, massivamente, que este não é o caminho para nada. Apenas para a falência total.
Como socialista resta-me esperar que o PS vote contra esta proposta de Orçamento Geral do Estado para 2012 que atira Portugal ao fundo!
Infelizmente, este não é o jogo estratégico da batalha naval da escola preparatória.
Este é o documento que vai influenciar decisivamente a vida de milhões de portugueses e de muitas empresas ao longo de muitos anos, asfixiando-os violentamente.

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