Ano novo

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Vítor Encarnação

Já lá está quando chego.
O seu cabelo é da cor das cinzas de um tempo que já ardeu quase todo.
– Talvez leve mais um pão. Eles são capazes de aparecer.
O homem da padaria não diz nada. Abana a cabeça e suspira.
– Não vieram no Natal, não puderam. Lá têm a vida deles.
A voz é a de um pássaro franzino e cansado. O silêncio que sobra cheira a lenha e a farinha. Na parede, um calendário está quase a morrer – os calendários têm a vantagem de saber em que dia vão morrer.
– Devem chegar hoje à tarde. É melhor levar mais um pão de quilo.
Avisamos os nossos clientes que estaremos fechados nos dias 1 e 2 de Janeiro. A gerência deseja a todos um Bom Ano Novo. Um aviso é uma antecipação, uma resposta a uma pergunta que iria ser feita por todos. Está aberto amanhã? Um aviso é um papel que dita letras para nós ouvirmos com os olhos e não perguntarmos nada.
Amanhã não há pão. Quem vai para o ano novo, avia-se no velho.
– Amanhã há pão, Fernando?
Nem amanhã, nem depois, disse-lhe pacientemente, três vezes, o homem da padaria. Quando não sabemos ler, as palavras de um aviso são pedaços de breu alinhados na escuridão do papel.
Com as mãos trémulas, a chuva toda deste Dezembro nos ombros e todas as nuvens nos olhos, conta as moedas precisas para levar outro pão. Não pode sair dali sem outro pão. Tem de ir governada. Tem de levar o saco cheio como os outros que encomendaram mais pão porque a padaria fecha dois dias e a família chega esta tarde. E os netos gostam de torradas com manteiga antes de deitar.
– Já pus mais umas postinhas de bacalhau de molho.
A fila já é grande e lá fora os trovões dão murros no céu.
Põe as moedas em cima do balcão. Para pagar um pão pequeno e um pão grande. Não faz mal estar mais cozido, os filhos ainda têm bom dente. O homem da padaria hesita, mas a fila é cada vez maior. São os donos dos pães com chouriço, dos bolos-reis, das carcaças, dos bolos de torresmos, que vão passar o dia numa roda-viva e já começam a desesperar. Mais logo, quando este calendário morrer, serão mesadas de quinze, vinte pessoas. Pais, mães, tios, netos, avós. Abraçados e contentes.
– Fernando, põe o pão de quilo num saquinho à parte, se fazes favor.
Encosta-se ao balcão e ao calendário moribundo. O homem da padaria inquieta-se. Não sabe o que há-de fazer, a fila já chega à porta. Paga-se então do pão pequeno, mete o pão grande noutro saco e com a voz embargada diz-lhe que é oferta da casa. Para a noite de ano novo. E que dê cumprimentos à família.
A velhota agradeceu, agarrou nos pães e desejou um bom ano a todos.
– Agora vou à mercearia buscar mais uma couve. É melhor sobrar que nem faltar.
Desconfio que mais logo estão aí. Nestas noites não gosto de estar sozinha.

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