Ano Novo

Sexta-feira, 6 Janeiro, 2023

Vitor Encarnação

Escritor

Somos assim, criaturas de fim e princípio, confundindo o tempo com o calendário, precisando de dividir a vida em partes, um todo é mais difícil, é muito mais pesado, a vida contínua e sem cortes é uma coisa impossível de suportar.
Aos bocados parece mais fácil, um ano de cada vez, de um momento para o outro, na contagem decrescente dos segundos, repete-se a desculpabilização do fracasso, a desresponsabilização do outrora prometido, a ligeireza da esperança, a leviandade da jura, o próximo é que vai ser, olha, afinal não foi, não faz mal, será melhor o próximo, também não foi, desta vez é que não falha. Começamos cedo a matar os compromissos, de pouco serviram as doze passas, os beijos e os abraços em todos os que nos rodeavam na noite do renascimento, os brindes com espumante, os desejos e os planos, rebentamos com tudo ainda o ano novo não amadureceu, ainda o ano novo é uma criança e já nós voltámos ao que habitualmente somos, voltámos à nossa essência de adiar e esquecer, tentando iludir o tempo, dividindo-o em partes para parecer mais, se neste ano falharmos haverá outros, pensando que o tempo não acaba, pensando que o tempo se deixa enganar com estas artimanhas.
Durante o ano vamos cometendo os mesmos erros, trilhando os mesmos caminhos, fazendo de conta que o tempo nos perdoa.
Somos assim, adoramos brincar à nossa própria ressurreição.
Agora que passou mais um ano é novamente réu de si. Tudo o que previu e não concretizou lateja dentro da sua cabeça. São ideias aos gritos. Sonhos a apodrecer na caixa craniana. Desejos ocos. Determinações imóveis.
Adiou tudo todos os dias, enganou todas as tardes, desaproveitou todas as noites. Sabe que foi mais um ano oco, apenas mais um calendário que o tempo comeu.
Fora essa a função do seu tempo. Comer folhas de papel devagarinho, rasgando dias, chorando meses, enterrando outro ano.
Sepultando-o dentro de si, ao lado dos outros anos que jazem no cemitério debaixo do cabelo. Está pois no sítio de onde não saiu. Trezentos e sessenta graus de nada.
Todas as luas escusadas, todos os sóis em vão. Não teve braços, nem mãos, nem boca, nem palavras para fazer aquilo que os braços e as mãos e a boca e as palavras fazem. Abraços, carícias, beijos, luz.
Ficou a olhar, a sentir vagamente que se fizesse um esforço conseguiria mover um braço e depois outro, e à frente deles iriam as mãos colhendo ternura.
Ficou a ver, a pensar que se fosse além dessa dor estática poderia abrir a boca e respirar o oxigénio contido nas palavras de amor. Mas não.
Ficou emocionalmente tetraplégico.
Como se ele próprio fosse uma estátua erguida em louvor da sua melancolia de carne e osso.

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