AMIZADE

Quinta-feira, 11 Julho, 2019

Vítor Encarnação

Na voragem da vida, nas esquinas das emoções, nessas encruzilhadas que se formam no pensamento, perdemos amigos.
Mas para sermos mais precisos e aliviarmos o peso da perda, é preciso dizer que não os perdemos verdadeiramente. Um verdadeiro amigo nunca se perde. Quanto muito podemos não o ver, não lhe telefonar, com ele não trocar opiniões. Mas sabemos que ele existe, que ele está lá quando precisarmos dele. Porque se o amigo tiver sido feito com fermento e massa de olhos brilhantes, de abraços, de lágrimas, de palavras suaves, de respeito, de confiança, de compreensão, a amizade sobrevive sempre.
Pode estar moribunda, presa em folhas de papel amareladas pelo tempo, enclausurada num grito que não se deu, calada em elogios adiados, enterrada em memórias movediças, pode ter sido esmagada por um conflito que não se soube resolver, enleada em rumores, assombrada por fantasmas que alguém soltou como cães raivosos que nos saíram ao caminho e nos morderam o coração. Mas não está morta.
É uma pétala que, basta querer, rasga o cimento da hipocrisia, é um pássaro que com asas de veludo rebenta a gaiola do cinismo, é uma borboleta frágil que destrói o interesse pontual e estratégico. É um sopro de vida, uma tulipa no deserto, uma chama a arder dentro dum cubo de gelo, uma verdade perdida no labirinto da mentira, uma corda para sair do poço, uma almofada fofa sobre um precipício.
A amizade é coisa una feita por dois. Cada um pode ter seguido por uma estrada diferente, às vezes até em sentidos opostos, já não se escrevem, já nem ao menos sabem o endereço um do outro, esqueceram a morada, esqueceram o rosto, esqueceram os risos, esqueceram o calor das palavras, esqueceram os cafés, as noites, a poesia, os medos que contavam um ao outro, os sonhos que diziam um ao outro, esqueceram as fraquezas que mostravam um ao outro, a força que davam um ao outro. Já não brindam à saúde de cada um e agora são dois copos partidos, ansiosamente procurando saber de quem é a culpa de se terem transformado em estilhaços.
A amizade é humana, e por isso a amizade tem arrufos. A amizade quer a atenção toda. A amizade é de cristal. É uma bola de sabão. A amizade é uma pomba branca zangada. A amizade hiberna. A amizade tem fases de armário. A amizade faz birras. A amizade é uma cigarra teimosa.
A amizade, por saber que tem amigos, e que eles a perdoam, esquece-se deles.
Mas a amizade tem raízes que quando se cansam do vazio retornam sempre à terra que as viu nascer.
A amizade é um vento morno que volta, um fogo que arde e se vê na cara.
A amizade é um pássaro que regressa ao ninho quando tem frio.
A amizade nunca morre porque tem dois corações.

O Autor utiliza o
novo acordo ortográfico

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