Amanhã vou para casa e as pessoas que não conheço ficam aqui

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

António Lúcio

director da Rádio Pax

– O médico já lhe deu alta, meu querido!
Foi a lágrima que me fez olhar para ela. Não o cabelo de neve, não a cor dos olhos tristes, não os lábios apagados do tempo, não a pele amarrotada das mãos delicadas. Foi a lágrima. O senhor de cabelo branco deitado na cama ao lado da minha e a mulher da lágrima junto a ele (o marido?), sentada numa cadeira de madeira, a afagar-lhe os cabelos brancos. Outras pessoas à minha frente, de olhos assustados, penduradas em tubos, a pensar para dentro, cismando, aguardando, implorando, uma senhora idosa murmura sons que, a esta distância, não consigo decifrar, parece-me que está a pedir qualquer coisa, faz gestos, tenta comunicar e a rapariga vestida de branco com voz doce:
– Vá, minha querida, só os lábios, só pode molhar os lábios.
O carinho daquela enfermeira com a senhora velhota que conhecera há duas ou três horas enternece-me. Depois, trata todos os doentes que aqui estão por querido ou querida. Deveras que fico emocionado.
– A minha querida precisa de mais alguma coisa?
A senhora velhota oferece-lhe um sorriso com gratidão dentro, a rapariga vestida de branco segura-lhe nas mãos descarnadas e sorri também. É curioso como um sorriso pode ser fronteira entre o antes e o depois; fundo negro do mar e azul do céu; ruído e silêncio. Pode ser a diferença entre nada e tudo. Meu Deus, como um sorriso é importante. Tenho a certeza: o dia em que a senhora velhota das mãos descarnadas morrer, o sorriso da rapariga de branco vai lá estar, ao seu lado. Não sei porque estou tão lamecha, não é habitual em mim, talvez porque estou no hospital e não é, com toda a certeza, o melhor dos lugares para se estar, principalmente nesta sala cheia de máquinas e fios eléctricos e computadores e frio e angustia e calor e tristeza e medo, muito medo. Eu que ainda ontem me considerava imortal. Hoje, muito medo. Não só eu, muitos olhos assustados nesta sala. Neste momento a senhora da lágrima está a falar comigo, está de pé a falar comigo, não tenho a certeza se é comigo mas tenho a certeza que está a falar, estou a ouvi-la mas não a escuto, olho para a lágrima e a lágrima grita, em silêncio, a lágrima grita e eu escuto gritos com verdade dentro. Apetece-me entrar na lágrima, depois, lá dentro, no meio da escuridão, escancarar as janelas e deixar entrar o sol. Porque é que o sofrimento dos outros me faz sofrer? Eu nem conheço a senhora da lágrima nem o senhor de cabelo branco que está deitado na cama ao lado da minha nem a velhota das mãos descarnadas, não os conheço e eles não me conhecem, nem a mim eu conheço, gostava de ser um Colombo navegador, não almirante ou governador ou vice-rei de qualquer coisa, Colombo navegador para me descobrir, para me conhecer e saber quem sou, só assim me surpreendia todos os dias, só assim, talvez, descobrisse a razão de sofrer o sofrimento dos outros.
– E então, meu querido, como se sente?
Como me sinto? É estranho, não sei como me sinto ou o que sinto. Neste momento pesa-me qualquer coisa mas não sei o quê, uma incerteza qualquer, um desejo qualquer, um abalo qualquer, qualquer coisa que desconheço, não falta de ar, não uma tontura, não uma dor, quero dizer o que sinto e não sou capaz, não tenho essa capacidade, mais fácil rasgar o peito e mostrar tudo,
– Veja!
Amanhã vou para casa e estas pessoas que eu não conheço ficam aqui, de olhos assustados, aguardando, implorando, que importância tem como me sinto ou o que sinto ou se me pesa alguma coisa, tudo isso não faz sentido, tudo aqui não faz sentido, estas palavras escritas não fazem sentido comparadas com… Que importância tem tudo isto comparado com a lágrima da senhora que está sentada na cadeira de madeira, ao lado da cama onde agora jaz o homem de cabelos brancos.

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