Algo mais

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Miguel Rego

arqueólogo

“Neste tempo difícil que atravessamos, que é de vós conhecidos, os portugueses devem fazer turismo no seu próprio país. É uma ajuda preciosa para ultrapassar a situação difícil em que o país se encontra. Aqueles que podem passar férias devem passá-las cá dentro.” Estas declarações do Presidente da República, Cavaco Silva, há meia dúzia de dias, cheiram a bacoco. Fazem lembrar a conhecida expressão do ditador de Santa Comba: “beber vinho dá de comer a muitos milhões de portugueses.” Este discurso tão patriótico e efusivamente transmitido em Albufeira, vem reflectir a passagem de Cavaco Silva pela Presidência, sem trazer nada de novo à vida política portuguesa e transmitir uma ideia fatalista carregada de sebastianismos medievos. Diga-se de passagem, muito a condizer com a forma subserviente como recebeu o Papa Bento XVI e esqueceu o facto de sermos um Estado Laico, assim como a demonstrativa falta de coragem política em não promulgar a lei do “casamento homosexual”, só porque a maioria do Parlamento, de Esquerda, o obrigaria a ter que fazê-lo, depois de uma segunda votação no Parlamento. Cavaco Silva esquece que a maioria do povo português não passa férias, nem em Portugal, quanto mais no estrangeiro e, se o fizesse, provavelmente seria mais económico fazê-lo fora de Portugal, com o preço a que estão os auto-estradas, os hotéis e a alimentação. Mas percebe-se afinal este discurso. Muito ao gosto do nosso tradicionalismo e puritanismo de trazer por casa olvidando ter que falar das coisas como deve ser. Naturalmente, procurando preparar uma segunda vitória presidencial, Cavaco Silva quer fazer-nos esquecer que não tem nada que ver com esta crise política, económica e financeira que atravessamos. Que não é o homem que geriu de uma forma “cesiliana” (leia-se como se fosse uma marca de materiais de construção) os dinheiros europeus, esquecendo o interior, semeando infra-estruturas e centralizando serviços no litoral, levando à desestruturação de todas as indústrias ligadas ao mar, da indústria pesada e privatizando selvaticamente sectores importantes da economia, que deu corpo às primeiras deslocalizações, ao início de um período de capitalismo selvagem e ultra-liberal cujos resultados estão bem à vista. A contínua tentativa de se desligar da política de subsídios que a sua governação fomentou no nosso país e do esvaziar da iniciativa portuguesa à custa de apoios externos e da apelida renovação do Estado, não nos convence. A figura de Presidente da República não pode ser apenas esta incessante e cansativa chamada ao coração do portuguesinho para levantar a sua auto-estima e confiança. O Presidente da República tem que saber chamar os bois pelos nomes, assumir responsabilidades por aquilo que faz e que deixa fazer. Já chega de docinhos algarvios. Precisamos de algo mais.

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