Alcançar

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Vítor Encarnação

Não aceita a ideia de viver um dia de cada vez.
É pouco, não suporta a inércia do momento. Nem os ponteiros do relógio, esses escravos do tempo, nela se detêm, quanto mais ele que é uma inquietação pegada! Precisa de se precipitar, antecipar, prever, deduzir. Precisa de esventrar os factos e desejar outra coisa qualquer. Tem sempre outra fome que o presente não mata.
(O presente é uma bolacha de água e sal.)
Dentro deste homem nada existe. Só existirá. Lá à frente, no futuro, é que ele se encontra. Mas o raio do devir vai montado num caracol e quando lá chega já leva o momento montado no dorso.
O homem é um rato numa roda. Planos? Isso é para gente com paciência e agendas de bolso que sabe que o sol também tem de dormir e que há um tempo para as borboletas e outro para as castanhas assadas.
Quem espera nunca alcança. Esperar é ter ferrugem na alma. Esperar é entreter-se no caminho. Esperar é estar sentado. Esperar não é mais do que o destino escrito com outras letras.
A pressa é muita. Tem medo de não ter tempo. Tem medo de ficar a meio. Mas depois, feita a viagem, nada do que encontra lhe chega quando lá chega.
No fundo o que conta é a partida e talvez um bocado do caminho. O resto é chegar lá. E chegar é o fim, é o desejo saciado, a barriga cheia, a tarefa cumprida, o sonho realizado, o compromisso honrado, o processo concluído. Mas para que serve a conclusão?
Chegar é apenas estar. Não é ser. Ser é questionar, é duvidar, é não querer estar apenas por estar. Ser é ir à procura de outro estar. Estar é um pássaro sem asas.
Não tem coração, tem sim um motor movido a ansiedade dentro do peito.
Esperar não é uma virtude. Esperar é uma fraqueza de espírito.
Esperar é uma osga parada. Esperar é de vez em quando comer um mosquito.
Esperar é uma cana de pesca. Esperar é ocasionalmente apanhar um peixe.
Esperar é plantar. Esperar é aguardar pela chegada das couves lombarda.
Esperar é uma fila. Esperar é um consultório de médico. Um sinal vermelho. Um atraso.
Uma submissão. Uma virgindade até ao casamento. Uma carta que não chega. Um beijo adiado. Um sono que não vem. Uma hora que ainda falta. Esperar é às vezes já não haver lugar.
Quer alcançar quando quer e lhe apetece. E não há realidade que o detenha, nem razão que o pare. Apenas o tempo se lhe põe à frente. Apenas o tempo é capaz de o guerrear. É aliás a única entidade que o tenta prender. Mas o homem disfarça-se de poesia e loucura para enganar o tempo. Tem frio no Verão, uiva no quarto minguante, nada nos desertos, rasteja no céu, põe fogo na febre, colhe maçãs em Novembro, adianta os relógios de todas as torres.
Não admite que tempo é uma escada que se sobe degrau a degrau, pé ante pé, dia após dia. E escolhe subir o futuro por uma corda, rasgar as mãos, perder a cor do cabelo para chegar primeiro e envelhecer antes de tempo.

Este desassossego é tempo perdido, pois o tempo é pastor de um rebanho quieto e o relógio é o seu cão.

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