Ainda ontem

Quinta-feira, 25 Janeiro, 2018

Vítor Encarnação

Dormiu mal. Eram cinco da manhã e não conseguia dormir. A horas tão matinais apenas o motor do frigorífico rói o silêncio da casa e as torneiras deitam pingas que batem na testa da noite. Acende as luzes do corredor e as fotografias abrem os olhos. Ainda estremunhado senta-se na sanita. Dobra-se sobre si mesmo ainda atordoado de sono e cansaço. Olha para o relógio de pulso. Tem de o afastar mais para o ver melhor. Não dá muita importância. É do sono. Parece-lhe ter a barriga inchada e os pés com calos. Não liga. É da noite mal dormida. Cinco e dez. É cedo, mas já não se vai deitar. Não quer voltar a ter o mesmo pesadelo. Aproveita para ir estudar para um teste de Filosofia que vai ter nesse dia.
O duche é retemperador mas quando esfrega a cabeça parece-lhe ter menos cabelo. Talvez seja do champô e da hora. Limpa-se e descobre os músculos das pernas incompreensivelmente flácidos. Ainda ontem no treino estavam fortes e duros. Olhou-se ao espelho. O reflexo é difuso. Pega na toalha e limpa o vapor. Do lado de lá surge um velho. Talvez seja um pesadelo.
Fecha a porta, ninguém o pode ver assim. Mesmo que os pais o tivessem ouvido levantar, pensariam que ele tinha ido à casa de banho e já estaria novamente deitado. Olha novamente para o espelho. Passa os dedos pelas rugas, pelas olheiras, pela nuca parcialmente desnudada, pela barba esbranquiçada, pela barriga grande. É de certeza um pesadelo.
Abre a porta devagar, mas a meio do corredor um miúdo chama-o, Pai, o que anda a fazer tão cedo?
Corre escadas abaixo. O motor do coração a roer o silêncio da casa. Iria resolver tudo, precisava apenas de encontrar a carteira, era lá que estava a resposta, o acordar do pesadelo. O bilhete de identidade renovado o ano passado antes das matrículas iria repor a verdade das coisas. Malditas noites de sonhos maus. Abriu a carteira, puxou o documento para a luz. Era a fotografia do velho. Sempre o velho. O velho ocupara o lugar dele no espelho, no bilhete de identidade, na carta de condução, nas fotografias do último Verão.
Seis da manhã e ele abrindo gavetas, despejando caixas, rasgando sacos, à procura de provas, querendo expulsar o velho. A mulher atrás dele a chorar, o que é que tu tens
homem? O filho a praguejar, bela noite para quem vai ter hoje um teste de Filosofia.
Agarra numa tesoura, corta o bilhete de identidade, a carta de condução, as fotografias do último Verão. Tenta tirar o velho da sua vida. Agora só já falta o espelho.
Entra na casa de banho e naquele rosto vê os desenhos do tempo, as marcas dos anos, o resumo de todas as horas, o sumário da vida.
A mulher e o filho abraçam-no e ele aos soluços diz, vocês não compreendem, é que ontem, ainda ontem, tinha eu dezoito anos.

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