Aguardemos!

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Alberto Matos

dirigente do BE

No fim-de-semana passado, Portugal pôde respirar de alívio com o resultado obtido pela nossa seleção que conseguiu o apuramento para os quartos-de-final do Europeu de futebol e com os resultados eleitorais na Grécia
Se por um lado, a vitória da Selecção portuguesa era um factor importante para todos nós e, nessa medida, uma forma de afirmação das nossas cores nacionais além-fronteiras, começando a justificar assim as excelentes condições que têm sido proporcionadas à Selecção e a toda a comitiva, não regateando gastos avultados neste Euro 2012, numa altura de grandes dificuldades para a generalidade do povo português.
Povo português que apesar de tudo isso, assistiu de forma entusiástica e apaixonada ao jogo com a Holanda, vivendo intensamente cada momento e exaltando com a vitória o nosso orgulho nacional.
Foi uma jornada bonita, só ensombrada pelas declarações infelizes de Paulo Bento na conferência de imprensa pós jogo, onde deveria ter assumido uma postura construtiva e positiva, de grande unidade nacional e nunca revisitando ressentimentos, porventura injustificados, de quem não tem um boa convivência com a crítica e a necessária capacidade de encaixe que se exige a um líder de uma selecção com a grandeza da Selecção portuguesa.
Estranhei essas declarações, até porque o seleccionador nacional tem tido um comportamento meritório em todo o seu percurso à frente da Selecção. O rigor, a preparação e a vontade dos jogadores são qualidades que muito se devem ao trabalho de Paulo Bento.
É uma verdade indesmentível que os nossos jogadores estão de parabéns pela excelente prestação, mas seria bom que essa vitória pudesse capitalizar a nação para questões mais abrangentes e importantes para a subsistência do nosso país. Deverá servir de exemplo para que possamos acreditar que somos um povo com grandes qualidades, capaz de reerguer Portugal nestes tempos difíceis que vivemos.
Em simultâneo, e a uma escala internacional, a eleições legislativas gregas, do passado domingo, foram importantes para a sobrevivência do espaço euro e, em grande medida, das economias mais periféricas, como é o caso da portuguesa.
Os resultados eleitorais ditaram a vontade da maioria dos gregos de continuarem na zona euro e da aceitação das regras de contenção e reorganização das suas finanças públicas. Importa agora que a Grécia saiba honrar os compromissos assumidos com a “troika” e que implemente as mudanças necessárias de modo a credibilizar as suas instituições e o país em termos mais latos.
Mas se a Grécia terá de cumprir o acordado com os financiadores, que durante vários meses evitaram o colapso e a insolvência do país, não é menos verdade que deverão ser flexibilizadas algumas das cláusulas aprovadas, de modo a permitir o seu crescimento.
Hoje, terça-feira, 19, a questão passa pela formação urgente de um governo com uma maioria sólida no parlamento grego e imediatas conversações com as autoridades europeias e o FMI, para acertar um conjunto de questões relativas aos acordos assinados, tendo em conta, não só todo o tempo despendido para esta solução democrática de formação de governo como também novas realidades que aconteceram na Europa (eleições francesas) e, particularmente, uma progressiva e gradual atenção ao conceito de como atacar e superar a crise que a Europa está a atravessar.
Os princípios de equilíbrio orçamental, de finanças públicas saudáveis e de reformas estruturais que garantam a sustentabilidade futura dos sistemas económicos mantêm-se intactos e devem ser as principais prioridades de todos os países, incluindo a Grécia.
A questão é como vamos atingir estes objetivos?
Com uma política global da União Europeia que combata a recessão, a estagnação económica e o consequente desemprego brutal associado.
Um relatório do FMI, entidade insuspeita, aponta para essa necessidade como condição essencial para alguns resultados de curto prazo no combate ao desemprego.
Com grande prudência e sentido de responsabilidade devem ser adoptadas políticas que sem descurarem o rigor e austeridade exigidas possam constituir almofadas de protecção para os problemas sociais e um estímulo para a economia dos países.
As chamadas reformas estruturais não produzem efeitos imediatos e é este período de tempo entre a sua implementação e o seu resultado que tem de ser acompanhado de medidas especiais e de excepção.
A própria cimeira dos G20, a decorrer no México, aponta nesse sentido.
Temos de fazer aquilo que é necessário em cada país, com o maior consenso possível, mas não podemos esquecer que estamos, cada vez mais, a assistir a uma crise europeia que só se resolve com políticas à escala europeia e que todos os líderes europeus têm responsabilidades, especialmente os que têm maior peso económico e político.
Avizinham-se tempos de grandes espectativas e de profundo debate, esperando que possa surgir uma nova era na União Europeia.
Toda a Europa tem de mudar de paradigma de desenvolvimento, que tem ditado as orientações dos governantes nas últimas décadas. Não é possível continuar a viver acima das nossas posses, mediante o acumular de défices públicos, pois o endividamento público acaba por destruir as gerações vindouras.
Há que trabalhar mais e melhor, que emagrecer o despesismo do Estado e, sobretudo, no emprego, mediante o estímulo do tecido produtivo.
Também não deixa de ser importante referir outro facto político que se aguardava com alguma expectativa, a segunda volta das eleições legislativas francesas, que viu a maioria socialista ser legitimada e reforçada pelos eleitores.
Esta nova correlação de forças no eixo Paris – Berlim, fundamental para o aperfeiçoamento da caminhada europeia, poderá ditar algumas alterações nas linhas de orientação do desenvolvimento e crescimento da Europa.
Resta, pois, aguardar pelos novos desenvolvimentos e acreditar que os mercados tenham uma reacção positiva a este novo quadro político.
Contudo, todas estas alterações no mapa político do “velho continente” não devem operar, por si só, um milagre. Os líderes europeus têm de agir rapidamente na construção de uma novo modelo político, fiscal e económico, sob pena do efeito positivo entretanto gerado vir a desgastar-se e voltar-se a instalar a incerteza e os receios dos mercados e investidores.
A Europa não pode continuar a adiar o seu crescimento e o aumento da empregabilidade, sobe pena de gerar um crash financeiro, não apenas dentro das suas fronteiras, mas de âmbito global, de consequências imprevisíveis.

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