Afinal havia outra!

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Rui Sousa Santos

médico

Há cerca de vinte anos atrás, mais ano menos ano, passou-se situação razoavelmente idêntica, noutra área profissional. Ministra odiada, vilipendiada na praça pública, movimentações de profissionais e de sindicatos – foi a altura de Leonor Beleza, então ministra da Saúde no primeiro Governo de Cavaco Silva, posterior vítima política de inimigos internos e externos, em travessia de um deserto que ainda não quis ou não pode fazer acabar. Leonor Beleza foi, então, objecto de crítica acesa e unânime por parte da classe médica, porque soube pôr em causa o estatuto de intocabilidade deste grupo profissional. Claro que isso não agradou aos profissionais e não chegou a Leonor Beleza ter boa parte da opinião pública pelo seu lado, acabando por ser substituída na pasta. Claro que as estórias do seu secretário de Estado da altura, Costa Freire, e do seu irmão Zézé, que, também, deram muito que falar, contribuíram para a queda. A machadada final foi dada pelo caso da infecção de pacientes hemofílicos com o VIH, por ter sido utilizado sangue infectado com o vírus na produção do factor VIII que estes pacientes necessitam. É claro que, por definição, a ministra era responsável por tudo o que se passou no ministério, mas vai alguma distância daí até à condenação por negligência com dolo que lhe fizeram o favor de arranjar e da qual só se conseguiu ver absolvida um bom par de anos depois. Ficou sempre a dúvida se, com outra estratégia e com menos “ajudas”, Leonor Beleza teria conseguido levar a água ao seu moinho. Muitos dos médicos que, na altura, a contestaram, são hoje dos primeiros a reconhecer-lhe a razão (total ou parcial) e a coragem política que, então, claramente lhe negaram. Os tempos mudam e o distanciamento e a idade tornam mais claros contornos que, a quente, confundiram muita gente. Mas sempre foi claro que desagradou muito tanto a gente de dentro como de fora do seu partido.
Maria de Lurdes Rodrigues, a ministra da Educação do actual Governo socialista, está debaixo dos holofotes. Não é qualquer ministro que consegue pôr na rua cerca de cem mil pessoas a contestar a sua acção política. E das duas uma, para que o consiga: ou é total e completamente inepta e apenas foi um erro de casting na constituição do Governo que integra, ou, em alternativa, pôs pelo menos um dedo em pelo menos uma ferida e não ficou com a mão quieta. Cem mil pessoas na rua (resisto a escrever cem mil professores) fazem pensar, mas não legitimam certezas. A verdade é que o grupo profissional dos docentes é dos poucos grupos profissionais com vínculo ao Estado em que, até agora, não há um sistema de certificação de capacidades com validação inter-pares. Porque, no fundo, é disto que trata a tão contestada avaliação de professores. Que este processo pode ser incómodo para muita gente, acredito. Que haja muito professor irritado por não poder chegar a professor titular, também acredito. Mas a verdade é que não há só enfermeiros supervisores, médicos chefes de clínica ou juízes do supremo. Há muito militar que se reforma como coronel, sem poder atingir o generalato. Os professores não deverão nem poderão constituir excepção. Maria de Lurdes Rodrigues trouxe agitação a um ministério em que sucessivos e diferentes titulares (com a excepção de Eduardo Marçal Grilo?) se limitaram a gerir um conjunto de problemas que vieram a criar as condições para os resultados que sabemos existirem. É que, amigos meus, as taxas de abandono da escola (básica, secundária e superior) ou o manifesto analfabetismo funcional de muito licenciado “sabe-se-lá-onde” (escolham-se instituições e licenciados aleatoriamente e peça-se-lhes que escrevam um texto, pequeno que seja, sobre um dado tema…) não apareceram do céu aos trambolhões. E gostava muito de ver muita da gente que neste momento grita contra a ministra, muita da gente que desceu a Avenida da Liberdade até ao Terreiro do Paço a declarar bem alto que, em protesto contra a política de educação, desistia de criar o chorudo pecúlio limpo de impostos arrecadado com as explicações que os alunos se vêm genericamente obrigados a ter para além das aulas… E gostava de ver os sindicatos da área do ensino a dizerem de sua justiça sobre tudo isto, gostava de ver os sindicatos (os da educação e os outros…) a defenderem alguma diferenciação pelo mérito, com uma clara definição prévia do que se defende por mérito. Nessa altura, render-me-ia: assumiria que não há nenhum oportunismo nisto, que não se confunde luta sindical com combate político, que não se tenta baralhar argumentos para a perpetuação da mediocracia. Até lá, desculpem-me: com erros políticos ou sem eles, com reformas demasiado rápidas e pouco trabalhadas em termos de comunicação, por entre as acusações de autoritarismo, de arrogância e de atemorização (que se tornaram, neste peculiar país, sinónimo do “deixem-me trabalhar” do Cavaco de há muitos anos), Maria de Lurdes Rodrigues e Correia de Campos arriscar-se-ão a ter muita razão durante muito tempo.
Afinal foi Leonor Beleza quem mandou fechar 150 maternidades… Quem a contesta, hoje?

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