Aeroporto

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Hugo Lança Silva

professor do ensino superior

O percurso do aeroporto civil de Beja é um pouco o retrato de uma cidade e de uma região. Legado da Força Aérea alemã – tal como outras das mais importantes e emblemáticas obras da arquitectura urbana da cidade, que os bejenses não souberam aproveitar –, foi posteriormente ocupado pela Força Aérea Portuguesa que desde há duas décadas “brinca” aos aviões, esbulhando à cidade um equipamento essencial para o desenvolvimento de Beja e do Baixo Alentejo!
Perdem-se no tempo as discussões para o aproveitamento civil do aeroporto! Uma obra, que sublinhe-se, era extremamente fácil e barata de ser feita, não existindo nenhuma razão objectiva para que o aeroporto civil não estivesse a funcionar há mais de uma década!
É curial dizer-se que o aeroporto civil tem sido uma aspiração de todos os bejenses. Nunca me pareceu que a frase fosse verdadeira. Muitos têm aberto a boca para falar do aeroporto, mas são muito poucos aqueles que contribuíram para que o projecto se tornasse uma realidade. Se muitos usam esta obra como bandeira, a verdade é que os poderes locais e centrais têm recorrentemente escamoteado este projecto, com a complacência passiva de praticamente todas as forças vivas da região! Que assistiram com um estranho silêncio e apatia ao deslocalizar para Évora de investimentos que tinham todo o sentido terem sido feitos no aeroporto de Beja, de modo a permitir e optimizar a sustentabilidade económica do investimento.
Durante os anos em que existe a Empresa de Desenvolvimento do Aeroporto de Beja, a EDAB foi mais vezes notícia por polémicas relativas à nomeação de administradores e condutas dos mesmos e pelos atrasos nas obras, do que pelo trabalho que realizou. Até porque na determinação estatutária das finalidades daquela empresa, manteve-se a indeterminação se a mesma teria, ou não, poderes para gerir o aeroporto.
Demorando muito mais do que era necessário, fez-se a pequena obra para o aproveitamento civil, obra essa cuja necessidade sempre suscitou questões, porquanto dentro da actual base sobeja espaço e equipamentos: mas em Portugal sofremos da patologia das obras novas, típicas na pobreza dos que se acham novos-ricos. Pelo que, com mais mês ou menos mês de atraso, ainda no corrente ano o aeroporto estaria pronto a receber a aviação civil.
Uso o condicional, porque na nossa azáfama pela auto-flagelação temos dado eco às mais absurdas insinuações sobre o estado da actual pista, em regra vomitadas por aqueles que são contra todos os investimentos fora de Lisboa e Porto. Como se aceitou sem protestar que a gestão do aeroporto fosse oferecido à ANA, que tendo os meios humanos e técnicos, tem pouca vontade e interesse em dinamizar este aeroporto, que beneficiaria muitíssimo se pudesse entrar no jogo da concorrência, impondo-se como uma opção aos aeroportos de Faro e Lisboa.
Mas comecei por afirmar que o aeroporto de Beja é o retrato da nossa cidade: chegou tarde, depois de anos e anos de uma longa e injustificada espera, agregou em seu redor malícia e queixume, incompetência e apatia e quando a obra terminar, ainda falta tudo por fazer.
Com efeito, é absolutamente inaudito e inqualificável que o aeroporto possa receber aviões, mas as estradas estejam tão degradadas que os autocarros não possam chegar ao local, que absolutamente nada tenha sido feito para ponderar a existência de comboio, sendo necessário aguardar com alentejana paciência pelo aparecimento do IP8. Como deveria envergonhar-nos a todos que a Câmara Municipal não tenha preparado absolutamente nada para receber o aeroporto, nomeadamente a criação de um Parque Empresarial onde as empresas tivessem condições de excelência para se instalarem.
Continuo a acreditar que este projecto pode mudar muito e para muito melhor a cidade! Mas ninguém acredite que o culminar das obras vai ser a resposta às nossas legítimas esperanças! Depois do imenso tempo perdido, a luta por um aeroporto civil deve começar agora, obrigando o Governo a cumprir a sua missão, pressionando a ANA a defender os interesses desta região, impedindo que os militares se arroguem dos donos do espaço e impondo à Câmara de Beja que cumpra a sua missão. Porque um aeroporto é muito mais do que uma pista e um edifício que diga Partidas e Chegadas…

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