Adeus

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Vítor Encarnação

Quando eles se conheceram, estava calor e a noite tinha um decote grande que deixava ver as estrelas todas.
E estava quente o banco de pedra onde ela, com olhos inquietos de ter chegado agora à vila, se sentava. Agitava-se como se fosse uma pequenina brisa perdida do resto do rebanho do tempo, e os pés, extremidades de carne de uma mini-saia de ganga, eram duas âncoras espetadas no cimento do jardim. Aqueles olhos não eram dali e aquele rosto nunca morara naquelas ruas.
Ela era jovem, daquela idade em que o tempo põe os corpos no seu molde e os arredonda e lhes dá uma textura de maçã. E não nos esqueçamos que era Verão e que a noite não conseguia arrefecer o calor que o dia lhe deixara. E ele, fazedor de palavras belas e domador de temperaturas, foi ter com ela e levou-lhe palavras frescas nos lábios. E com elas, quando as disse entre dentes, borrifou-lhe o rosto, o pescoço, os ombros, os joelhos e os olhos estrangeiros. E ela arrepiou-se com aquela mistura espessa de ar e de letras. Eram adjectivos e verbos que ele lhe tinha dito e que voavam já indomáveis no céu do seu coração.
Dali a nada, os olhos dele e os olhos dela eram já quatro pássaros castanhos poisados num fio de espanto. Tinham acabado de se conhecer, mas só a vergonha e a esplanada cheia lhes punha algemas nas mãos, açaimes nos lábios e nas línguas. Nenhum deles tinha sentido nada assim. As suas peles só tinham sido objecto de carícias da família, beijos de aniversário, de boa noite, de até amanhã, de despedida, nunca de desejo, nunca abaixo do queixo. Mas agora nascia ali um incontrolável apetite vertical de saliva e suor. Para quem não sabe, estas coisas acontecem assim de repente, na noite, por causa de uma aliança entre o brilho da lua e o silêncio das osgas.
Assim viveram durante anos, achando alimento no estarem juntos, lembrando o passado nas linhas da testa, vivendo o presente na água das bocas, preparando o futuro na fundura dos olhos. As noites eram empecilhos, necessidades parvas de dormir inventadas por quem não sabe o que é estar apaixonado. A escola um desperdício de horas passadas a conhecer nada quando já se tem tudo. Os dois eram um par de pleonasmos, um casal de redundâncias. Se um dava um ai, logo o outro fazia eco.
Respiravam-se um ao outro, pois senão morriam.
Mas um dia, um deles, não se sabe se terá sido ela ou se terá sido ele, deixou cair o olhar para o chão porque descobriu que a paixão era apenas um urso de peluche que dormia aconchegado entre quatro lábios. E ele, ou ela, não sabemos, aflito, quis apanhar o olhar e o peluche com as mãos, mas o outro já não deixou. Já não era capaz de mais. Estavam moídos, moribundos. A paixão matara-os para o mundo. Cada um tinha-se tornado o espelho do outro e o espelho partira-se com tanto beijo e tanta obsessão.
Um destes dias, um deles, não digo se foi ele ou ela, levava o poema “Adeus” de Eugénio de Andrade debaixo do braço.

<i>Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio. (…)</i>

<b>P.S. </b>Você, que é ele ou ela, vá acabar de ler o poema.

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