Acordo ortográfico

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Miguel Rego

arqueólogo

O acordo ortográfico (AO) que dentro em breve regulamentará o novo falar português entrou, definitivamente, na velocidade de cruzeiro. Desta vez é de vez. Os Palop’s, Portugal e o Brasil, pouco a pouco, vão normalizar o falar e o escrever para que dentro de seis anos estejamos todos a grafitar da mesma forma. A escrever, que fique bem claro. Porque o acordo ortográfico não altera a pronúncia das palavras. Assinado em 1990(!) parece finalmente que é desta. Não será difícil a nossa adaptação (ou será adatação?) ao AO. O pessoal adapta-se (ou adata-se a tudo?). E também não me interessa discutir se é mais ou menos importante escrever heroico em lugar de heróico, quando lembramos o Camões a salvar os “Lusíadas”. Ou fato em lugar de facto, quando queremos transpor para a escrita aquilo que o olhar regista. De facto. Também não me preocupa muito que o ba”p”tismo assista à perda do “p”, até porque nem me lembro do último a que fui. Ser diretor ou director é-me profundamente indiferente, já que não são lugares que almeje. Mais sem gosto me parece alguns serem olhados como exceção. Mas é a vida. Contudo, o que me parece mais grave é que esta pressa que deu a toda a gente, de repente, para pôr em prática o AO, não advenha de um período de esclarecimento dos vários governantes e poderes, esquerda e direita, que passaram por S. Bento; ou pela função cívica que alguns dos nossos agentes culturais têm em promover a difusão, o estudo, a discussão e dignificação da língua de Eça e Aquilino; ou que este AO não tenha sido precedido pelo debate provocado pelas universidades e pelas escolas em torno de uma questão que nos parece, deveras, importante. Não! Este forçar da barra aparece, coincidência ou não, depois da aquisição da grande maioria das editoras portuguesas, de tendência esquerda ou direita, por um único grupo editorial. Pura coincidência? Talvez. Mas é um verdadeiro “negócio da China”, e sem opositores tibetanos. Dicionários, prontuários, gramáticas… tudo novo nos próximos seis anos. Isto sim, é negócio. Com letras. Mas antes que se feche mais uma janela sobre a especificidade cultural destes sete países, não estamos apenas a falar de Portugal, importa que levantemos mais amiúde a nossa cultura e saibamos passar à ação, sem objeção alguma, na defesa da nossa realidade linguística. Antes de adotar as novas regras da ortografia, temos que perceber que este AO, é a verdadeira assunção da cultura portuguesa levada ao extremo. Em cada esquina uma ASAE para a língua. Coitado do Berardo. Ainda bem que guardaste a tua colecção no CCB antes do AO. Já viste se tivesses de acordar com o GOV à luz das noves regras dü AO. Tinhas vendide a coleção. Só nã seêi a quêin.

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