A superioridade moral dos comunistas?

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

António Revez

Desde pequenino que fui enlevado com a suposta superioridade moral dos comunistas: subordinação democrática ao colectivo, abnegação na luta com sacrifícios pessoais, perseguição das causas sem benefícios particulares, infalibilidade moral, modéstia, desprendimento dos bens materiais, repúdio da ganância, do lucro capitalista e de comportamentos sociais burgueses. Eu era da Juventude Comunista Portuguesa, e o nosso lema, imposto pelos seniores, continuava a ser: “trabalho, honestidade e competência”. E tínhamos o autarca comunista como modelo: dedicadíssimo ao partido, frugal de gastos e de bens, impoluto com os dinheiros públicos, reservado na vida social, trabalhador, honesto, competente, e servia a política e o partido e não a si, tanto mais que, seguindo os estatutos do PCP, devolvia ao partido o remanescente do seu salário de presidente da Junta, de presidente da Câmara, ou de vereador, caso ele fosse superior ao salário que auferia antes desse cargo público, e, na esmagadora maioria dos casos, era-o.
E desconfiávamos, e muito, daqueles comunistas por consciência social e adesão ideológica: os comunistas ricos, que tomavam as nossas dores não por pertença de classe, não porque sentissem na pele ou no estômago, as dificuldades económicas, a precariedade do emprego, a exploração do patrão, o baixo salário, as contas por pagar, a exclusão do acesso à cultura ou à educação, à saúde ou à justiça, à habitação ou ao lazer, mas sim, tantas vezes, porque estava na moda ser esquerdista, ou porque isso afrontava os papás endinheirados, ou porque a namorada era comuna. E nós, comunistas porque sim, porque os nossos pais eram, porque éramos do povo ou do povinho, porque éramos filhos do trabalho e da pobreza, da privação e da revolta, olhávamos com reserva para aqueles comunistas emprestados pelo “outro lado”, pelo vértice do sistema que nós combatíamos e queríamos superar. Eles vestiam uma camisola vermelha durante o dia, nas manifs e nas reuniões, nos debates e nos comícios, mas à noite, enquanto nós dormíamos com a mesma camisola vermelha, depois de ouvirmos a queixa do pai massacrado da fábrica, e os lamurios da mãe por causa da cabra da patroa, e o protesto de ambos por causa da carestia, da inflação, da prestação da casa, e das magras férias mais uma vez anuladas, os outros comunistas de veludo, vestiam as cores do conforto e da abundância, descansadinhos da vida.
Passaram 25 anos. Continuam a existir comunistas de carne e osso, nascidos e criados no abraço de um ideal generoso, herdeiros convictos do trabalho, da honestidade e da competência, protagonistas desse lema no dia-a-dia de tudo o que fazem. Mas são já raros, escasseiam. E já não é o autarca comunista que podem seguir como modelo. Muitos dos novos autarcas comunistas e muitos dos que, passados 25 anos, são agora quase velhos autarcas comunistas, vestem ainda de quando em vez a sua camisola vermelha de ocasião, nos oportunos momentos protocolares que a mínima decência exige, mas já nem no trabalho se distinguem dos outros, e nem na honestidade, e nem na competência. E à noite, enquanto faltam à reunião do partido, ao qual já não entregam um cêntimo do que excede o que ganhavam antes, deslocam-se nos seus carros de alta cilindrada para o monte alentejano ou para a casa na praia, com despojos de favores vários no banco de trás, e, na companhia do seu whisky velho e charuto nos beiços, é já sem sequer aperto na consciência que esboçam um sorriso ao relançarem os olhos pelos desenhos do Álvaro Cunhal, escondidos e desalinhados a um canto da sala. Alguns, instalados na sem vergonhice, até lhe dirigem o copo e saúdam-no.

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