A sétima hora

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Paulo Barriga

jornalista

Tudo é difícil em Odemira, apenas morrer é fácil. É difícil arranjar trabalho. É custoso chegar perto de um médico. É improvável nascer-se em Odemira. Mas morrer é muito fácil. Seja por vontade própria: para enxotar a solidão e o isolamento entornando o corpo por uma ravina a baixo ou dependurando o pescoço numa corda. Seja na marquesa de um centro de saúde incompetente para reoferecer vida a um atropelado ou para voltar a pegar um motor que momentaneamente deixou de funcionar. Em poucos dias morreram duas pessoas em Odemira com uma facilidade assustadora. E é tão difícil aceitar isto de ânimo leve.
Morrer em Odemira ou em Barrancos ou em São Barnabé por falta de assistência médica condigna é revoltante. Em termos civilizacionais, esperar sete horas por auxílio, é uma regressão. É uma barbárie que não pode ser entendida como uma mera fatalidade e com um simples encolher de ombros. Há que pedir contas a quem nestes casos as tem por saldar. Há aqui responsabilidades políticas e até criminais que não podem passar impunes.
A Saúde não pode continuar a ser entendida como um simples negócio, como um fardo orçamental, como uma mera mercearia que tem que dar lucro a todo o custo. A Saúde, a nossa saúde, a saúde de todos os Portugueses, tem que estar para lá da mercancia e da política de circunstância. (António Camilo, presidente da Câmara de Odemira, sugeriu na comunicação social que houve manobras partidárias para não instalar em Odemira uma ambulância de reanimação. É uma acusação bastante grave que carece de investigação, pois se tal aconteceu, há nestas duas mortes gente com as mãos manchadas de sangue!)

<b>Nós, os bêbedos. </b>Daniel Sampaio, pessoa que escreve livros ligeiros sobre assuntos pesados, é um tipo notável. O irmão do nosso ex. é uma pessoas que se tem em muito boa conta, muito atenta, e que escreve coisas muito sérias sobre o comportamento das pessoas, sobre a vida em família, sobre os tempos que correm, sobre a sociedade em que vivemos, sobre a educação das crianças, sobre a influência do meio físico e social na formação da personalidade… enfim, é uma Margarida Rebelo Pinto com algum requinte e, certamente, menos pêlos louros.
Algumas pessoas compram os livros ligeiros de Daniel Sampaio. E há até quem seja reincidente em tal descuido. O conselho que aqui se deixa vai no sentido de se utilizar tais objectos com algum cuidado e seguindo as mais elementares normas de segurança próprias ao manuseamento de produtos tóxicos.
Na última obra de Sampaio – que um amigo me fez chegar em fotocópia – debruça-se o autor, entre outras profundas superficialidades, sobre o consumo de álcool na adolescência e sobre a influência por mimetismo que os jovens decalcam no comportamento dos pais. Observa o “cientista” que existem, por igual, factores de ordem genética e cultural que explicam o abuso de álcool, mas que é o exemplo que se dá em casa que mais contribui para as bebedeiras precoces que os adolescentes gostam de apanhar entre amigos.
E dá uma sugestão aos incultos progenitores indígenas: “devem, por isso, não beber ou beber com moderação, nunca surgindo embriagados junto dos filhos”. No entanto, não se esquece o sóbrio Sampaio e até compreende, que existem hábitos culturais muito enraizados que são difíceis de apagar: “É difícil dizer a um alentejano que seja abstémio, mas é crucial esclarecê-lo de que deve beber pouco, sobretudo se já tem descendentes”. Vem a bela pérola da psiquiatria de pechisbeque nas páginas 191 e 192 do último livro do salvador, intitulado<b><i> Lavrar o Mar</i></b>.
Sampaio, ao que se depreende das suas doutas palavras, está em missão ou em vias de querer missionar o Alentejo no sentido de esclarecer esta gente bárbara para não beber à frente dos filhos. Preconceituoso embora persistente, o bom do Daniel conhece as dificuldades inerentes a uma empresa desta envergadura: é muito difícil convencer um alentejano a não se embebedar todos os dias.
O investigador tem, por conseguinte, trabalho de campo adiantado e já concluiu coisas importantes: a) todos os alentejanos são bêbedos; b) embebedam-se à frente dos filhos; c) tem maus fígados, pelo que não é fácil convencê-lo a deixar de beber sem se correrem riscos de ordem física ou outros. E esse é também a sugestão que aqui lhe deixamos com muita intensidade e alguma pena: deixe de beber, senhor doutor, vai ver que as ideias lhe saem menos toldadas, menos arbitrárias, menos limitadas. Até lá, as pessoas deviam de ser salvas de ler os seus livros, pelo menos os alentejanos que, pelos vistos, não lhe merecem uma pinguinha de respeito.

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