A Árvore

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Pedro Prista

professor do ensino superior

Foi recentemente designada a árvore símbolo de Portugal: o sobreiro. O gesto e a escolha podem ter grande alcance, a começar pelas ironias que facilmente sugerem. Na agonia da crise, a árvore nacional podia ser o pilriteiro, “… que dás pilritos, porque não dás coisa boa? Cada um dá o que tem conforme a sua pessoa”. Terá sido considerado? Ou a palmeira, símbolo oficial da condenação turística à retórica do tropical, forçada à euforia apesar da sua “tristeza de árvore exilada” como escreveu Eça. Ou talvez a oliveira, árvore símbolo da modernidade por excelência, tornada tanto mais interessante quanto mais disforme, e por isso mesmo ornamental, mas sobretudo pela sua veia excursionista: tira-se de qualquer lugar, põe-se em qualquer lugar. Conheço algumas em varandas de Lisboa, já as vi na estrada carregadas em camiões, e parece que sobrevivem bem, até aos absurdos. Já o pinheiro merece menos desvelos, apesar de bem precisar deles, mas está talvez cansado de evocações marítimas e de desgostos florestais. O eucalipto, árvore trágica por excelência, revoltada ainda com o desacerto cósmico do seu novo hemisfério, violenta para com o seu chão, votada ao corte cerce e precoce, bem precisava de quem lhe fizesse a elegia, para consolo, já que o seu mal é profundo e humano, e a árvore não tem culpa.
A designação de uma árvore símbolo para Portugal, seja ela qual for, é em si mesmo um facto surpreendente e significativo. A nossa proverbial incúria da floresta faz eco de uma mais profunda falta de sensibilidade e de cultura pública da árvore, aliás já muito assinalada. Baudelaire fala num dos seus “poemas em prosa” da cidade de Lisboa como feita toda só de mármore e de luz, pois o seu povo, por ódio, arrancou todas as árvores. Em contraponto, a paixão pela árvore tem historicamente em Portugal defensores ilustres, mas isolados, e cercados de hostilidade até.
De onde virá esse aleijão cultural que a Assembleia da República quer hoje contrariar? Do mundo transumante dos pastores arcaicos? Da suposta costela levantina? De um presumido ânimo anti-gótico? Das marcas profundas da eterna expulsão da terra?
Tal como algumas árvores, também esta questão terá mais raízes que ramos e folhas mas, apesar de menos frondosa que outras, tornou-se tão premente que não poderá ser evitada. Dependemos das árvores em demasiadas coisas, a começar pela sobrevivência básica, para podermos ter delas a cultura decorativa, superficial e fugaz que tem servido de embalo sentimental aos ambientalismos piegas de quintal de condomínio. O sobreiro é uma árvore rija, rústica, antiquíssima e preciosa, mas em perigo, que clama por muito mais estudo, investigação e mobilização de interesse público em seu redor. Perante as actuais alterações climáticas é provável que lentamente ganhe presença no território a Norte, embora nas actuais convulsões financeiras possa ser tomada demasiadas vezes como estorvo a “investimentos”. Ela e nós somos quase o mesmo. Esta árvore foi uma boa escolha.

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