A palavra saudade

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Mariana Maia de Oliveira

estudante do ensino superior

Saudade, consta, é a palavra mais exclusiva da língua portuguesa. Somos um povo historicamente educado para sentir este tipo de impressão – condene-se, se se queira, a imodéstia, mas tudo o que pode ser dado a sentir a outras nacionalidades é sempre um sucedâneo imperfeito e apenas aproximado dessa realização extraordinária que produzimos com afinco ao longo de séculos de história. Mistura inquantificável de dor, nostalgia, privação, entrançados por um tipo muito particular de amor, cozinhados pacientemente no calor deste grande silêncio mediterrânico. Sucessão desordenada de coisas sem nome, sete letras que são sete símbolos fechados sobre si próprios para que não se veja o que levam dentro.
Perdoe-se-nos, pois, o orgulho quase paternal por este vocábulo tão inédito. Não se tome por arrogância esta necessidade de criar uma palavra específica para designar um sentimento que mais ninguém sente, ou que, pelo menos (acreditamos), ninguém sente do mesmo modo apaixonado e visceral, nem com esta entrega desmedida, nem desta forma tão própria que não sabemos ao certo de onde nos vem. Temos a saudade inscrita numa certa identidade colectiva que só é inteligível dentro dela mesma, à luz do seu próprio entendimento, à sombra da sua incompreensão. Apesar de todas as faltas, as materiais e as económicas, que grassam nestes dias por este rectângulo fora, podemos pelo menos conservar a felicidade tímida de ter uma palavra nossa, inteiramente nossa, património tão estimável quanto o que é feito de pedra e se pode palpar ao toque físico da mão. A saudade pode palpar-se com a substância sensível que preenche os interstícios da carne.
Dentro da palavra saudade o tempo não se mede em horas, nem em dias, nem tão pouco um ano representa alguma coisa na sua escala caprichosa de palavra. O sentimento existe desde sempre e para sempre, como uma linha infinita que corre pacientemente ao nosso lado; acontece apenas que só damos por ela em intervalos intermitentes, crises agudas que são como uma grande cólica da sensibilidade… Talvez a dificuldade principal de tradução da palavra saudade para outros idiomas seja o facto de, como poucas, esta não reproduzir nenhum sentimento linear, nenhum estado compreensível da consciência humana, e como a alegria, a paciência ou a honestidade, não ficar perfeitamente definida por um conjunto consensual de símbolos gráficos. O problema da nossa saudade é este estar perpetuamente neste limbo indeciso e nevoento – porque, sendo uma angústia crónica por algum tempo passado, não é inteiramente o desejo de regresso a ele; tendo nela uma sensação estranha de perda, não é necessariamente a vontade de voltar a ter. Saudade do que ainda não foi, saudade antecipada do que está a ser, saudade do que, tendo sido, não ficou completamente realizado em nós – provas todas elas de que a saudade, como um “sentir a falta”, não é um sentimento no passado.
Como se diz que sempre acaba por acontecer com tudo, a saudade nunca se deixa curar pela passagem do tempo. Nem mesmo quando, por força de novas circunstâncias, parece calar-se-lhe definitivamente a voz – ela passou apenas a falar numa frequência que não se ouve com a consciência. E nada do que se diz é certo, e tudo o que se diz é pouco – porque, enfim, a saudade é a criatura que o próprio criador incompreende.

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