A máquina do tempo

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Mariana Maia de Oliveira

estudante do ensino superior

Há uns tempos, quisemos construir uma máquina do tempo. Assim mesmo; sem outro nome que, em caso de insucesso, pudesse comprometer menos o nosso inatacável orgulho: ousámos, com todas as letras a que tinha direito, chamar-lhe máquina do tempo. Fizemos um plano. Urdimos legiões de esboços, uns extravagantes, outros improváveis, vários insensatos, todos esperançosos. Projectámos com extraordinária minúcia os materiais, as linhas e as formas, as peças e o modo de as dispor, os acabamentos finais do inusitado aparelho; posso quase assegurar que chegámos a prever o modo como funcionaria. Acreditámos, com uma certeza que nada teria sido capaz de abalar, que podíamos de facto subjugar o tempo aos caprichos das nossas infantis vontades. Ignorávamos, então, o que era já do geral conhecimento e se apresentava tão clara e distintamente aos olhos de toda a gente: a certeza de que o tempo não é animal que se domestique.
Talvez por uma das insondáveis ironias do destino (que sempre as ironias se produzem pelo retrocesso de uma vontade que tivemos no passado e que, ao retornar a nós, põe em evidência uma discrepância tal com a vontade que temos no presente que nada disso pode deixar de ser risível); talvez, digo, por uma dessas insondáveis ironias, era o nosso desejo de então fazer com que o tempo avançasse mais célere. Estávamos longe de conceber um mundo em que a humanidade se debatesse com o problema secular da inexorabilidade do tempo, a terrível efemeridade da vida, a evidência angustiante de que a morte é a sucessão natural da vida e que, de permeio, ruge o tempo-papão que empurra a segunda em direcção ao abismo impiedoso da primeira. Nem tão pouco, nessa altura, conhecíamos as palavras que designam essas coisas tão sérias e importantes. Quando meio mundo, se não o for inteiro, mataria pela possibilidade de fazer avagarar o tempo, nós queríamos simplesmente fazer com que ele andasse mais depressa.
E assim nos atirámos, num ímpeto construtivo cheio de um entusiasmo que creio ser apanágio exclusivo da infância, à execução do grandioso projecto. Ninguém suspeitou que andávamos congeminando um plano desta cósmica importância; teria havido decerto quem não gostasse de saber que era nosso intento interferir assim tão levianamente com os princípios e com as leis fundamentais do universo. Não chegámos a esclarecer se o tempo passaria mais depressa exclusivamente para nós ou se os relógios dos outros também estugariam o passo (falha porventura imperdoável); se fosse verdadeiro o segundo caso, devemos um pedido de desculpas à humanidade pelo condenável egoísmo. E como o que então desconhecíamos não tinha importância absolutamente nenhuma, tínhamos sem o sabermos a certeza de que a nossa máquina do tempo escaparia ou estaria acima de todas as leis da física, pelo simples facto de não sabermos então que tudo no universo se submete a elas.
Reconheça-se, como nunca poderia deixar de ser, o que de pitoresco e insensato há na imagem de duas crianças tentando construir uma máquina do tempo. Pois se, em séculos e séculos de existência, nunca as melhores mentes humanas conseguiram achar o modo de controlar a indómita criatura, ousaríamos nós, verdes projectos de gente, levar a cabo tão magnânime empresa? O certo é que, de facto, o tempo passou mais depressa enquanto nos embrenhámos naquilo. Crianças, intuímos o conceito de relatividade. Andávamos por essa altura a semear-nos, cultivando sem saber as ideias em que haveríamos de vir a pensar; embrenhadas, sem saber, nas mais intrincadas questões filosóficas. Hoje, por isso, quando julgamos que conquistámos o acesso à verdade e ao razoável, porque tudo o que fazemos e pensamos já não está desprovido do nexo que nunca têm os projectos da infância, é pertinente considerar a possibilidade de que talvez não saibamos agora mais do que sabíamos então: ganhámos apenas a ilusão disso.
O projecto de construir uma máquina do tempo nunca passou de um conjunto de pacotes de leite vazios furtivamente escondidos debaixo da cama, até que um nada místico cheiro a azedo veio avisar de que seria talvez a altura de abortar as operações. Por algum motivo, entendemos que o pacote de leite vazio seria o tijolo básico da nobre matéria prima de que se haveria de constituir a nossa máquina do tempo. Não reclamo para mim os louros de tão extraordinária descoberta – como seria, de resto, uma terrível falta de lealdade –, mas reitero sempre que a máquina do tempo foi uma visionária e arrojada obra em co-autoria.
Como qualquer projectista, e nisto nem a idade tenra é factor capaz de desculpabilizar a falta, ponderámos as causas de um fracasso possível – para que assim pudéssemos suprimi-las de raiz. De todas as hipóteses que pusemos, da dificuldade em encontrar os materiais ao melhor modo de manter o secretismo do plano, nenhuma delas passou por duvidar de que funcionasse. Foi essa a beleza de tudo.

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