A irresistível tentação de reinventar a roda

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

David Marques

Dias há em que me questiono se alguns dos meus compatriotas não levam demasiado à letra a máxima “antes fazer mal, que nada fazer”. Contrariando a velha ideia que os portugueses não têm iniciativa, alguns assumem, não raras vezes, o glorioso e inútil desafio de reinventar a roda. É um fenómeno que se pode verificar em todos os sectores. Contudo, posso afirmar que os exemplos mais extraordinários que conheço foram e são protagonizados por funcionários e quadros da administração pública central, com maior ou menor responsabilidade. Para quem lida diariamente com estas estruturas já é difícil ficar surpreendido. Sucedem-se os exemplos de novas regras, novos organismos, novos pareceres, novos circuitos que mais não são que originalidades sem sentido, sem razão de ser e que no fim de contas só complicam e emperram quem trabalha. Falo de originalidades porque não são fundamentadas em nenhum estudo, em nenhum processo de avaliação. Falo de originalidades porque mexem precisamente com os aspectos onde não há problemas. Exemplos? Em cada diploma legal que sai e que regulamenta um qualquer processo de licenciamento inventa-se um novo parecer, uma nova obrigação ou um novo formulário. Dizem-nos, naturalmente, que é para simplificar. Recordo a este propósito as palavras de Macário Correia num debate que decorreu Castro Verde por ocasião das comemorações dos 30 anos de Poder Local, que confirmavam esta realidade. Segundo ele, que passou por diferentes funções na administração central, é prática corrente observar que as diferentes estruturas da administração são pródigas em complexificar a legislação, criando novas exigências de consulta e de parecer, como se disso dependesse o seu futuro.
Em cada período de programação comunitária de apoio financeiro (e este é já o quarto!) surgem novas regras, novos figurinos, novos interlocutores, como se estivéssemos sempre a partir do zero. Mudanças sérias e para melhor? Nada disso. As boas ideias ficam sempre pelo capítulo dos objectivos, porque na prática e no que respeita à operacionalização, deparamo-nos quase sempre com um retrocesso nos procedimentos, que contradizem os próprios objectivos, e com a repetição dos mesmos erros do passado. “Antigamente podia funcionar de duas maneiras. Será que uma era melhor que a outra? Não. Mas agora só pode ser desta maneira. Porquê? Porque sim.”
Será este o resultado de um impulso individual irresistível de deixar uma marca, por pequena que seja? Será este um traço da inevitável concorrência entre serviços? Sinceramente, não sei. Mas sei quais são os efeitos destas originalidades. Atrasam os processos, favorecem o surgimento de novos obstáculos, criam constrangimentos, desmotivam, desmobilizam, inibem boa iniciativa.
Curiosamente, associa-se quase sempre a este tipo de situações, por parte de quem as protagoniza, uma atitude de autismo, de alguma arrogância que leva a que nunca estejam disponíveis para ouvir, escondidos por detrás de uma telefonista, ocupados por uma reunião que se prolonga por dias e dias e protegidos por um micro horário de atendimento que só permite que sejam prestados esclarecimentos na primeira terça-feira de cada mês entre as 16h35 e as 16h48. “Ponha por escrito. Eu vou pôr mas gostaria de poder falar com o director. Mas é melhor pôr por escrito. Sim, concerteza, mas gostaria de falar primeiro, pode ser? O director está em reunião. Só amanhã.”

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