A imperfeição do autoplágio

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

António Revez

Nunca li nenhum livro de Joaquim Mestre, como tal, não se trata aqui de avaliar a qualidade do que se desconhece. Dele apenas gramei meia dúzia de artigos de opinião publicados no “Diário do Alentejo”, escritos de forma pedestre e aflitiva. Sendo o assunto em apreciação os seus livros, não é, que fique claro, sobre a boa ou má arte com que os escreve. É mais sobre o modo como os copia, de uns para outros, e das estratégias que mobiliza para que disso o leitor não dê conta.
Recuemos no tempo, para um didáctico enquadramento. Este senhor, em 1996, já na altura director da Biblioteca Municipal de Beja, na introdução do “seu” livro <b><i>A Vila de Cuba em 1706 – um esboço</i></b>, plagiou descarada e grosseiramente grande parte de um trabalho de licenciatura que o seu autor lhe havia facultado pessoalmente para consulta, copiando quase na íntegra longas páginas desse escrito, sem quaisquer aspas, sem qualquer menção ou agradecimento ao autor, sem qualquer referência bibliográfica ao trabalho (1). O plágio (ou apropriação indevida), que foi confessado pelo prevaricador e ignobilmente por si justificado, criou em mim suficiente repugnância e legítimas reservas sobre a sua honestidade intelectual, e poucas dúvidas sobre a sua ética e conduta como autor, autodescredibilizadoras no plano literário-científico, confessadamente culpadas no plano jurídico, e incompatíveis, estou disso convicto, com as responsabilidades públicas e intelectuais exigíveis a quem dirige uma biblioteca municipal.
Por isso não li o primeiro romance de Joaquim Mestre, <b><i>A Cega da Casa do Boiro</i></b>, editado pela Hugin em 2001, nem o segundo, <b><i>O Perfumista</i></b>, editado pela Oficina do Livro em 2006, nem o “terceiro”, <b><i>A Imperfeição do Amor</i></b>, também editado pela Oficina do Livro em Setembro deste ano.
E se em 1996 foi o próprio autor copiado que se confrontou com o delito, quinze dias atrás foi um jornalista, a braços com a recensão de <b><i>A Imperfeição do Amor</i></b>, que encalhou com os indícios de nova fraude, mas sem que dela pudesse ter absoluta certeza. Tenho-a eu agora, após exercício de comparação. E a que é que me refiro? Ao evidente e inquestionável facto de Joaquim Mestre ter pura e simplesmente copiado para <b><i>A Imperfeição do Amor</i></b>, o romance <b><i>A Cega da Casa do Boiro</i></b>, publicado em 2001 pela Hugin. É certo que nesta versão de 2007 acrescentou um ou outro parágrafo de quando em vez, uma ou outra folha em cada capítulo. Mas a estrutura do romance é a mesma, até o título da quase totalidade dos capítulos se mantém, tal como as personagens que, com mais um nome próprio ou menos um apelido, permanecem, no essencial, as mesmas. Ah, e Joaquim Mestre também mudou o início do livro. Na versão <b><i>A Cega da Casa do Boiro</i></b>, o romance começa com a frase: “Corria o ano de mil novecentos e quarenta e cinco.” (p. 13). Na versão <b><i>A Imperfeição do Amor</i></b>, o início é bem diferente…: “Era uma vez na Galiza. Corria o ano de mil novecentos e quarenta e cinco.” (p. 11).
Pois bem, uma coisa é quando alguém resolve reeditar crítica ou cosmeticamente um título já publicado e o faz, por estratégia pessoal ou editorial, pela mesma ou por diferente editora, com o mesmo título ou outro diferente, indicando inequivocamente que a obra recente não é inédita/original, mas sim uma proveniência (inspirado em…, baseado em…, a partir de…) de um título anterior já publicado. É isto ser sério e correcto com os leitores: dar-lhes a possibilidade de, informando-os, optarem por adquirir ou não adquirir uma obra já publicada e entretanto revista e aumentada ou diminuída.
Outra coisa bem diferente é quando alguém, como é o caso de Joaquim Mestre, aproveitando a “boleia” de uma publicação recente, corre a remisturar o livro “velho”, só uns retoques apenas, e a apresentá-lo como novíssimo a estrear, e sem qualquer informação, discreta que fosse, que permitisse ao leitor associá-lo com o “velho”. Que nome é que isto tem? Desonestidade intelectual e literária? Fraude editorial?
A benevolência de alguns poderia ver nisto uma desatenção do autor, um descuido. É justo esse benefício da dúvida. Mas esfumemo-lo e sem piedade, pois o que se segue escancara a suspeita de má fé e a intencionalidade fraudulenta.
Repare-se: na badana de <b><i>O Perfumista </i></b>(2006), vem uma nota biográfica sobre Joaquim Mestre onde se refere, entre outros aspectos, que ele é autor do romance <b><i>A Cega da Casa do Boiro</i></b>. Na badana de <b><i>A Imperfeição do Amor </i></b>(2007), reaparece a mesma nota biográfica, mas com uma alteração reveladora… é excluída a referência ao romance <b><i>A Cega da Casa do Boiro</i></b>, e é afirmado que <b><i>A Imperfeição do Amor </i></b>é o seu segundo romance…
Portanto, dúvidas não restam: Joaquim Mestre enganou objectivamente os leitores! Quem comprou <b><i>A Cega da Casa do Boiro</i></b> levou mais do mesmo na compra de <b><i>A Imperfeição do Amor </i></b>sem o saber! Quem comprou <b><i>A Imperfeição do Amor </i></b>fê-lo na presunção de que comprava uma obra original e ainda não publicada, pois em lado nenhum da capa e badanas do livro se faz referência ao romance de onde procede realmente. Pelo contrário, a referência que existia no <b><i>O Perfumista </i></b>foi literalmente excluída.
Resta agora apurar se Joaquim Mestre também enganou a Oficina do Livro ou se a editora, tendo conhecimento disto, alinhou e foi cúmplice do logro. O que, a confirmar-se, em nada abona a sua imagem e credibilidade.
Nesta trapalhada indigna e que envergonha todos os que exercem com seriedade o ofício da escrita, há uma verdade que se lê na aldrabice, é quando, na badana da capa, se apresenta <b><i>A Imperfeição do Amor </i></b>como o segundo romance de Joaquim Mestre… Pois, o segundo efectivamente, e que é, cronologicamente, o primeiro… Isto, claro está, se entretanto ninguém reclamar a autoria de <b><i>A Cega da Casa do Boiro</i></b>, ou, há que admiti-lo também, a autoria de <b><i>O Perfumista</i></b>. E nesse caso ficamos a saber que Joaquim Mestre, afinal, ainda não escreveu romance nenhum…

<i>1- Toda a polémica gerada pela denúncia do autor ofendido, assim como a confissão e justificação de Joaquim Mestre, encontra-se nas edições de 29 de Novembro (pag. 6), 6 de Dezembro (pag. 7) e 13 de Dezembro (pag. 7) de 1996 do jornal “Diário do Alentejo”.</i>

Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on linkedin
LinkedIn
Em Destaque

Últimas Notícias

Role para cima