A Gaveta

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Mariana Maia de Oliveira

estudante do ensino superior

Em todas as casas, creio, existe sempre um compartimento – desde uma modesta gaveta até uma divisão completa – que se destina a armazenar indefinidamente as coisas cuja existência decidimos passar a ignorar. Sótãos arredados do trânsito quotidiano da vida, caves obscuras cheias de uma indiferença húmida, armários bafientos atulhados de coisas sem préstimo, gavetas sem fundo que acumulam diligentemente os despojos da existência. Terras de ninguém, fragmentos desordenados de passado que vivem prisioneiros de si mesmos. Coisas moribundas que continuam a respirar a respiração que prenuncia uma morte cronicamente iminente.
Todas as casas, creio, ou todos os ajuntamentos funcionais de pessoas que vivem comummente as suas vidas, têm essa necessidade quase orgânica de uma sítio onde possam armazenar a sua transpiração. Talvez que essa necessidade venha de um pavor igualmente orgânico de atraiçoar a memória, como se ela, no fim de contas, se consubstanciasse nesses objectos velhos, fúteis e decapitados que o decorrer natural da vida vai deixando para trás. Eles, os objectos, são também vítimas absolutamente inocentes da nossa incapacidade de cometer uma eutanásia atempada – agora, encerrados nos seus cubículos de inutilidade, sabem eles, sabemos nós, que não poderão jamais abandonar esse túmulo caseiro. Perderam irreversivelmente o seu contexto. São coisas não resolvidas mas inteiramente passadas, perderam a validade e chegaram por engano ao presente, e perdemos nós a disponibilidade para lhes dar algum sentido. As coisas que estão verdadeiramente na Gaveta são, por definição, aquelas que não têm nenhuma perspectiva de sair dela.
A Gaveta acumula inconscientemente as partes mal resolvidas de nós. É nela que depositamos as coisas incómodas que, assim afastadas para longe da vista, procuramos levar para longe do coração (ou, pelo menos, da porção dele que se encarrega de lidar com estes aborrecimentos colaterais a existir). Nela sepultamos aquilo que não queremos que se intrometa mais nos caminhos andáveis de todos os dias, mas a que também não queremos perder o direito de acesso; as coisas absolutamente inúteis que obstinadamente queremos que continuem a ser inutilmente nossas. Basta-nos a certeza simples de que esses resquícios de passado continuam lá, imóveis nessa Gaveta eterna para que os acometemos, presos nesse limbo indeciso que não é ontem, nem hoje, nem amanhã; é um nunca mais mascarado de talvez.
A Gaveta, por vezes, extravasa com insolência os limites físicos da divisão que lhe estava destinada e, quase sem repararmos, apodera-se do espaço que era o nosso. Como uma infecção temporariamente sem cura, invade-nos perfidamente sob a forma mais frequente de uma desarrumação descuidada, e engole-nos, perversa, dentro do seu próprio caos. É possível que, nem sempre mas muitas vezes, a desarrumação externa e palpável do espaço à nossa volta traduza a nossa própria desarrumação interior; e o sentido desta relação de causalidade duvidosa, caso ela exista, é de igualmente duvidosa determinação. Damos por nós imersos num volume sufocante de coisas por decidir, papéis e objectos que gravitam pacientemente de um local para outro à espera que saibamos o que fazer com eles (ou, pelo menos, à espera que queiramos encarar o facto de termos que decidir o que fazer com eles). Enquanto isso a desarrumação cresce, ininterrupta, como um organismo vivo a que vamos tacitamente tolerando a (co)existência. Talvez saibamos intimamente que a causa de tudo é uma espécie de qualquer coisa entre a cobardia e a dificuldade em lidar com as noções de transitório e definitivo, ou uma vontade infinita de não querer entender que existe uma diferença entre os dois. Bem que podíamos fazer hoje, de facto, o que é para amanhã; mas o depois de amanhã alicia-nos sedutoramente com a certeza de que um perpétuo suceder de amanhãs vai eternamente justificar a nossa inércia.
Temos, de resto, a consolação reconfortante de suspeitar que certos sítios, certas coisas, certos recantos deliberadamente ignorados, são assim porque é assim que têm exactamente de ser. Caves, sótãos, escritórios, armários; Gavetas eternamente por arrumar cujo único propósito é o de estar perpetuamente em arrumação, porque acaso algum dia estivessem definitivamente arrumados deixariam de ter razão para existir. Sítios cuja identidade é exactamente essa: uma enormíssima e indolente indefinição.
A profundidade da Gaveta, creio, ultrapassa em tanto a nossa capacidade de compreensão que a ideia dela nos aparece com a simplicidade terna e quase infantil com que sempre vêm embrulhadas as coisas que importam verdadeiramente. As coisas que lá estão dentro esperam pacientemente por uma ciclicidade que talvez nunca mais venha, pelo menos a tempo de darmos por ela; a Gaveta é um repositório que obedece a uma certa estrutura circular que em nós desconhecemos, como um desígnio oculto que cumprimos sem compreender.
É amanhã – é amanhã que abrimos a Gaveta e a despojamos dos monstros que lá estão dentro. Amanhã mesmo é que a revolvemos de alto a baixo para escrutinar uma por uma todas as inutilidade guardadas desde sabe-se lá quando, todas as coisas incómodas que nos ferem só na ideia de termos que encará-las; é amanhã. E desta inabalável convicção que temos hoje só será capaz de nos demover a convicção ainda mais inabalável que teremos amanhã, e dessa só a que virá no outro dia, e assim sucessivamente até que esse ímpeto revolucionário acabe, como os demais, por esmorecer molemente nos interstícios dos dias. Ladram os cães de nós – e sempre a caravana acaba por passar. A linha do tempo, que se conheça, permanece impassível e horizontal perante estas contendas infantis com um passado por concluir.
Na Gaveta, de resto, por entre a tralha escusada e parasitária, há-de haver também guardado algum pedaço antigo de nós. Estimemo-la ao menos por isso, com o respeito devido a essa generosidade cúmplice de quem guarda desinteressadamente bocados do que já fomos, para que assim, libertos, voltemos a poder ser mais. Quem julga não ter Gavetas, creio, certamente não conhece a sua Casa.

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