A Futebolite

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

José Filipe Murteira

professor do Ensino Secundário

Era uma vez um país / onde entre o mar e a guerra / vivia o mais infeliz / dos povos à beira-terra.
Começa assim o poema de Ary dos Santos: um país amordaçado, perseguido, sujeito a uma guerra injusta e cujos filhos tinham de sair para ganhar a vida ou para fugir a essa guerra. Qual Roma antiga, que dava pão e circo aos seus habitantes, este país era conhecido pelos três F – Fado, Futebol e Fátima – que “adormeciam” o povo que Salazar queria que continuasse “orgulhosamente só”.
Se o Fado era o conformismo e Fátima o colaboracionismo com o regime, o Futebol era utilizado, entre outros aspecto, para evocar o Estado multirracial e ultramarino, com o exemplo dos grandes jogadores de então (Eusébio, Coluna, Hilário), oriundos dos territórios africanos sob o domínio luso.
Era outro, o tempo desse futebol, jogado em todo o lado às três da tarde de domingo, cujos relatos na rádio eram seguidos apaixonadamente por todo o país, que à noite se colava à televisão a ver o Domingo Desportivo. Futebol em directo era, por esta altura, uma excepção (tal como possuir o aparelho não era ainda regra).Os mais apaixonados desenvolviam aquilo que se chamou de “clubite”, que os impedia de ver para além da cor das camisolas do seu clube – no futebol, mas também no hóquei em patins ou no ciclismo, as modalidades principais, que enchiam estádios, pavilhões e estradas.
Esse país mudou com o 25 de Abril: a liberdade, a democracia, o fim da guerra, a melhoria das condições de vida. E também o fado, que se renovou, e a própria Igreja, que procurou novos caminhos, liberta da incómoda ligação à ditadura.
Há, entretanto, hoje em dia, uma nova trilogia, fruto dos novos paradigmas que modelam a nossa sociedade, dominada, por aquilo que, de uma forma simplista podemos designar por RSF: os Reality Shows, os Shopping e a “Futebolite”.
Mais do que a Clubite, própria apenas dos seguidores dos clubes, a Futebolite é a omnipresença do futebol.
Todos percebem, todos falam, nomeadamente o “cidadão comum”, quando interrogado na televisão. Por esta caixa que mudou o mundo, passam também os mais variados especialistas, desde os chamados “tudólogos”, que falam sobre tudo e não se coíbem, no final, de trocar cachecóis de clubes, até circunspectos e reputados políticos, médicos, cineastas, advogados e outros “comentadores especializados” que, semanalmente, se transformam em seres coléricos e violentos, quase chegando a vias de facto. Para a história fica a afirmação de um “senador” da nossa República, defensor acérrimo do seu clube: “A minha mulher diz que ainda vou morrer a ver futebol” (jornal “I”, 15 Julho).
Os principais telejornais passam sempre as mesmas imagens, dos treinos, das conferências de imprensa, sempre as mesmas caras e afirmações, dos mesmos presidentes e treinadores, que são replicados nos três (!!!) diários desportivos, publicados num país onde existem das mais baixas taxas de leitores de jornais.
Não raras vezes, essas palavras, de tão repetidas, são as que vão incendiar os adeptos, que agridem árbitros em centros comerciais, ou que transformam um jogo de futebol num verdadeiro estádio de sítio, com polícias, bastões, cães, pedras, tiros, num espectáculo de violência pouco recomendável.
Como caricatura, refira-se ainda a história do médico que se deixou corromper por um laboratório, a troco de bilhetes para jogos internacionais do seu clube, com estadia em hotel e refeições incluídas.
A Futebolite ignora a crise que nos massacra: a exemplo das fortunas dos 25 mais ricos, que subiram 18%, quando se trata de gastar, de “investir” no futebol, não há limites, nem crise que impeça. De entre as 40 principais ligas do mundo, a de Portugal é a sétima onde mais se investe no “desporto-rei” (DN, 21 Julho). A mesma liga em que, de acordo com um estudo da Universidade Católica, os clubes se endividaram, entre 2000 e 2010, em 500 milhões de euros, o que, segundo o seu próprio presidente, pode pôr em causa a sua sustentabilidade (publico.pt, 12 Agosto).
Mas, paradoxalmente, a essa verdadeira orgia despesista, que leva clubes a contratar, numa só época, um equipa completa e respectivos suplentes, não correspondem estádios cheios: entre os 25 clubes europeus com mais público, não se encontram nenhum português (expresso.pt, 21 Julho).
Esta ausência de público (em qualquer das divisões), fomentada pelos próprios dirigentes, que não se importam de ter 500 ou 600 espectadores num jogo numa noite de segunda-feira (a troco dos direitos televisivos), em vez de cinco ou 10 mil num domingo à tarde, tem como principais motivos, o custo dos bilhetes, as deficientes condições para o público em alguns recintos, a pouca qualidade de muitos jogos e, sobretudo, a constante e variada oferta televisiva, nomeadamente nos canais “ppv”, que quase todos os dias nos trazem bons jogos dos campeonatos inglês, espanhol ou alemão, e ainda das competições europeias.
Concluindo, Futebol e Futebolite não são a mesma coisa: o primeiro é jogado nas quatro linhas, como o fez a selecção de sub-20 no recente Mundial, a segunda leva a que a maioria desses jogadores vá jogar para clubes de segundo plano, cá ou no estrangeiro, substituídos nos chamados “grandes” por outros de igual ou menor valia.

<b>PS: </b>Contrariamente ao que estas linhas possam transparecer, gosto de futebol. Joguei alguns anos “a sério”, na adolescência fui sportinguista (pela admiração que tinha pelo Damas – de quem fiz um álbum com fotos do Nuno Ferrari, com as suas grandes defesas –, pelo Yazalde e pelo Joaquim Agostinho) e adorava ler as crónicas do Carlos Pinhão ou do Homero Serpa no “trissemanário desportivo” “A Bola”. De há uns anos a esta parte sou fã do futebol praticado (nas quatro linhas) pelo Barcelona, pelo Manchester United e pelo FC Porto. Mas não me chamem para discutir arbitragens, golos anulados, penaltis não marcados ou as contratações do Defour, do Matic ou do Atila Turan.

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