A fotografia

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

António Lúcio

director da Rádio Pax

Fui para casa procurar a fotografia onde estou eu, o Fernando e o meu avô. O meu avô ao meio com a mão direita pousada no meu ombro direito e a mão esquerda no ombro esquerdo do Fernando. Tinha eu oito anos. O Fernando era mais velho um ano. Tenho a certeza dos oito anos porque o meu pai ofereceu-me uma bicicleta azul nesse mês de Agosto e a bicicleta está aqui, no lado esquerdo da fotografia, encostada ao poial da porta dos meus avós. No outro lado da porta um canteiro comprido com rosas vermelhas e malvas de cores diferentes (mais malvas do que rosas). O meu pai fez a fotografia com uma máquina que comprou em Ceuta, uma Zenit, e que mais tarde passou para mim. Foi a minha primeira máquina fotográfica, ainda hoje a tenho, gosto de guardar coisas que me falem ao ouvido histórias que esqueci no tempo. Voltando à fotografia: atrás de nós, ao longe, o Ti João em cima da carroça, regressava do trabalho ao final da tarde. Lembro-me bem do Ti João. Lembro a minha avó a dizer:
– Dá um passou-bem ao Ti João!
A minha mão desaparecia na mão áspera, amarrotada e quente do Ti João.
– Estás bom, António?
E eu, com os olhos no chão, respondia afirmativamente com a cabeça.
– Vais ficar por cá quantos dias?
Eu não respondia, apequenava-me, envolvia-me em vergonhas, não sei porquê. A minha avó respondia por mim.
Sempre ouvi as pessoas da aldeia dizer que era homem sério, honesto, trabalhador. Nunca ninguém o viu bêbado ou ser mal-educado com alguém. Saía de casa com o sol a despontar e só regressava ao pôr-do-sol. Todo o dia a labutar nos frajais que o pai lhe deixou. Lembro-me de nós, rapazes de oito, nove, 10 anos, ao fim do dia, ficarmos à espera que o Ti João regressasse do trabalho.
– Querem saramenhos, moços?
Não tínhamos tempo para responder. De cima da carroça, atirava um saco com três ou quatro punhados daquelas peras pequenas maduras. De quando em quando gostava de trazer da horta ou da mercearia da Dona Alice uma gracinha para os cachopos. O Fernando era sempre o primeiro: esfregava uma pêra pequena madura nas calças e, de seguida, dava-lhe uma dentada até ao sabugo.
– Sabe a mel, Ti João!
O homem sorria, orgulhoso.
Todos os dias, sem descer da carroça, ficava conversando connosco cinco ou dez minutos. Ou melhor: ficava, durante cinco ou 10 minutos, a ouvir-nos contar as histórias do dia, depois, olhava para o relógio, ajeitava o chapéu preto debotado pelo sol e falava com voz de velho:
– Vá rapaziada, são horas do Ti João ir para casa procurar as horas vazias!
A mula adivinhava-lhe o pensamento, levava-o para casa sem ele pedir e eu ficava a pensar nas horas vazias.
Em Agosto, as noites no Alentejo eram (e são) quentes e abafadas. As mulheres, depois de lavarem a loiça do jantar e verem a Gabriela na televisão a preto e branco, sentavam-se à porta de casa, ao fresco.
– Tenho a certeza que o Nacib gosta da Gabriela!
Nós brincavamos ao apanha ou ao esconde-esconde, ou então, iamos para debaixo do candeeiro que ficava junto à porta do Bento, jogar ao berlinde ou ao pião.
Os homens reuniam-se na taberna do Vinte Nove. Bebiam vinho, falavam alto e jogavam à sueca alumiados por um candeeiro a petróleo (Na taberna ainda não havia luz eléctrica). Ao fundo a talha gigante e gorda esperava o vinho novo, encostada ao canto, do lado esquerdo da porta que dava para uma cozinha escura. A porta era um reposteiro de chita com flores desaparecidas. No balcão de mármore encardido havia copos de vidro grosso em fileira, à espera.

– Enche mais uma rodada!
O Vinte Nove levantava a cabeça do balcão, estremunhado, rosnava, puxava a gosma das entranhas e disparava certeiro no chão.
– Estes são os últimos.
Afirmava autoritário. Depois justificava:
– Amanhã é dia de trabalho!…
Os homens resmungavam. Falavam baixo. Bebiam vinho. Voltavam a jogar à sueca. Comiam pão com toucinho e azeitonas. Voltavam a falar alto. Gargalhavam. O Vinte Nove, de pé, encostava a cabeça ao balcão de mármore encardido e adormecia com os braços em jeito de almofada.
Em casa, o Ti João encontrava silêncio. O candeeiro a petróleo com hálito negro; a chaminé vazia pintada de preto de Inverno; a outra cadeira, desabitada; retratos alinhados em cima do armário; as paredes descoradas do tempo. A mulher, companheira de sempre, morrera com as folhas do Outono.
– Foi-se com o mal no corpo!
diziam os velhos. Nunca tiveram filhos, Deus não quis, conformaram-se, ele e a sua Francelina. Em casa o Ti João era uma sombra, sentada à mesa, a ouvir-se respirar, em busca de um sono que apagasse as lembranças das horas vazias.
O meu pai deu-me a notícia,
– Morreu o Ti João
depois, fui para casa procurar a fotografia onde estou eu, o Fernando e o meu avô. O meu avô ao meio. Atrás de nós, ao longe, o Ti João em cima da carroça.
– Querem saramenhos, moços?

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