A Felicidade

Sexta-feira, 23 Setembro, 2022

Napoleão Mira

Escritor

Um meu velho mestre – de quem fui amigo toda a vida – repetia amiudadamente que a arte era a salvação.
É uma frase que me tem acompanhado ao longo da vida e, se repararmos, é ela que nos ilumina o caminho quando emergimos das trevas onde por vezes a humanidade teima em mergulhar.
Em todas as formas de arte, o artista é espectador único do drama da sua criação, sendo este um privilégio, ou até um momento epifânico de satisfação, também poderá e deverá doer. Sim, porque criar magoa, dilacera e, nalguns casos, até destrói.
No entanto, é dessa busca incessante, desse caminho cheio de pedras que a alma do artista se sustenta. Diz-se mesmo que o exagero é o alimento dos artistas, condição única para a busca desse “Santo Graal” que se costuma chamar de: Felicidade!
A Felicidade é o denominador comum, o fio condutor dos que encontram na exigência criativa o pedregoso caminho para a mesma.
Mas comecemos por desconstruir etimologicamente a sua génese.
Vamos primeiro ao osso e só depois à carne.
Esta chegou à nossa língua mãe através do grego “phyo”, que está associado a “fecundo” ou “produtivo” e, ainda do latim, “felicitas”, de felix que, está conectado com feliz.
Dizem os dicionários que é “ um estado durável de plenitude, satisfação e equilíbrio físico e psíquico, em que o sofrimento e a inquietação são transformados em emoções ou sentimentos que vão desde o contentamento até à alegria intensa ou júbilo”
Pessoalmente, discordo em parte desta discrição. Acho mesmo que a Felicidade é o “Santo Graal” do contentamento, aquele momento orgásmico – logo de duração efémera e ao mesmo tempo eterna –, em que o usufrutuário recebe uma descarga de endorfina, seratonina, dopamina e oxitocina, o famoso “quarteto mágico” das substâncias químicas que o nosso corpo produz que, segundo os estudiosos da matéria, nos conduz a um estado que poderemos apelidar de FELICIDADE.
Os artistas, os criadores, os investigadores ou os inventores tendem a usufruir destes momentos com mais assiduidade que o comum dos mortais.
Julgo mesmo que o Homem, confrontado com as suas limitações, quando as consegue ultrapassar, naquele momento em que é compelido a gritar “EUREKA”, vivenciará nesse instante aquele estado temporário de transe a que se decidiu chamar: FELICIDADE.
Quero aqui dar o meu testemunho pessoal de como esta interfere no processo criativo. Poderei afirmar que sim. Que já fui confrontado com momentos de enorme júbilo ao constatar que acabara de produzir algo que me iria marcar para o resto da vida, mesmo que aos outros se revelasse pouco ou nada interessante o produto do meu labor.
Dou um exemplo: lá pelos meus vinte anos escrevi um poema chamado “Máscaras D’Orfeu”. Como isso aconteceu numa época em que produzia com alguma frequência, por lá ficou esquecido (ou a maturar!) nas gavetas durante algumas décadas.
Quarenta anos passados dou com o dito poema. Li-o, reli-o e dei por mim a pensar que o texto estava incompleto e logo ali resolvi dar-lhe seguimento.
Quando o terminei, e depois de o ler e reler até à exaustão, achei que estava na presença de uma peça poética de que me podia orgulhar, tanto mais que todo ele era uma elegia à geração de Orfeu, de quem sou devoto admirador.
Este estranho alinhamento astral de ter descoberto um texto que, afinal, me demorara quarenta anos a terminar, de estar dedicado aos poetas que mais admiro e de estar satisfeito com o resultado da minha escrita causou-me uma estranha sensação, assim como que de êxtase, mas ainda não era essa tal de Felicidade.
Essa aconteceu dois ou três anos mais tarde quando entro em casa, ligo a televisão e estava a dar um programa de descoberta de talentos.
Para meu espanto, apareceu no ecrã um miúdo com uns 18 anos que respondeu aos jurados vir dizer poesia.
E o poema que trazia para interpretar era este mesmo de que vos falo, “Máscaras D’Orfeu”. Aí sim, caí redondo no sofá, deixei cair as lágrimas que se me quiseram soltar e, na solidão da minha companhia. Soube naquele momento o que era a FELICIDADE!

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