A favor da Alta Velocidade

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Paulo Arsénio

eleito pelo PS - AM Beja

Muito se tem falado de comboios de alta velocidade, que adiante designarei por TGV, e sobre a sua necessidade ou não para o nosso país. Em tempo de vacas magras, como agora sucede, os bodes expiatórios da crise espreitam em todas as esquinas. Um dos alvos favoritos das críticas é o TGV.
Situemo-nos geograficamente na Europa: a par da Grécia haverá país mais periférico que o nosso? Não, não há. Estamos distantes dos centros de decisão da Europa. Dos grandes centros económicos da nossa plataforma continental.
Só temos fronteira terrestre com a Espanha, cerca de cinco vezes maior que nós, que por sua vez se liga ao centro da Europa através da fronteira com a França.
A ferrovia é um elemento estruturante da economia dos países. É o transporte em que os países do centro da Europa apostam para ligarem cidades e populações. É um tipo de transporte muito caro mas de grande qualidade, fiabilidade e conforto e que transporta, por regra, muitos passageiros e mercadorias. Na Alemanha, por exemplo, a estação central de cada localidade, converte-se por norma, automaticamente, no centro nevrálgico dessa terra.
Para ligações entre cidades no centro da Europa a alta velocidade é cada vez mais opção. Na curta e média distância, ganha-se muito tempo relativamente às viagens de avião, para além de espaço e conforto.
No entanto trata-se de um investimento muito dispendioso que só compensa se existirem cidades com dimensão populacional que gere um fluxo assinalável de empresários e/ou de turistas e se as paragens forem muito poucas, ou nenhumas, entre centros de interesse.
Isto para dizer que em Portugal só é necessária a linha de alta velocidade entre Lisboa e Madrid. Só entre estas duas cidades há população e actividade que possa justificar uma ligação do tipo TGV. Mais nenhuma. Mas essa ligação é absolutamente fundamental e vital para defesa dos nossos interesses. Liga-nos à plataforma europeia de alta velocidade e tem um impacto positivo para Lisboa, e consequentemente para Portugal, quer ao nível do negócio, quer ao nível do turismo. Quebra um pouco da nossa situação quase ultra-periférica no contexto europeu dos transportes e defende melhor o nosso papel e a nossa posição no seio da península ibérica.
Penso assim porque ao consultar o sitio da Internet do Ministério do Fomento espanhol, conclui que até final de 2010 a Espanha terá cerca de 2.300 kms de rede de alta velocidade a funcionar e que em 2020 a Espanha espera contar, mesmo com este abrandamento económico do momento, com 10.000 kms de rede ferroviária de alta velocidade. Praticamente todas as cidades do país, com uma dimensão diferente do nosso salvaguardo, estarão ligadas desta forma dentro de apenas 10 anos! E nós? Não ligamos sequer Lisboa a Madrid? Que papel pretendemos desempenhar no contexto ibérico? A vizinha Espanha já ligou Madrid à Andaluzia (Sevilha e Málaga), a Barcelona, e daí para França, e está a ultimar as obras para norte em direcção ao país basco. Está presente o eixo para o mediterrâneo, para o continente europeu e para o golfo da biscaia. Falta aqui o eixo para o Atlântico que estrategicamente pode e deve ser desempenhado por Portugal e por Lisboa, naturalmente.
Mas mais: até 2013 existem avultadas verbas de fundos de coesão para este tipo de investimento cuja continuidade não está ainda garantida no futuro. Uma linha de TGV lançada agora, sai aos cofres públicos bastante mais barata do que se construída dentro de anos com menos, ou mesmo sem, verbas comunitárias. Até 2013 temos oportunidade. Sem fundos de coesão da UE será impossível avançar nesta matéria, não tenhamos ilusões.
Tempos de crise não devem, nem podem, impedir que os países se modernizem e avancem, construindo estruturas que os ajudem a ser mais sólidos e mais competitivos no futuro. Pelo contrário. É nestes momentos que o Estado deve puxar pela economia, promovendo alguns investimentos de carácter público que sejam necessários e geradores de trabalho para empresas e trabalhadores.
Portugal não precisa de 10.000 kms de TGV, como a Espanha terá em 2020. Nem sequer dos 2.300 kms que terá operacionais já no final deste ano. Precisa apenas de 400 kms. A linha dupla Lisboa-Elvas. Não precisamos do plano megalómano de Durão Barroso primeiro-ministro, que previa em 2003, a construção de 4 linhas de TGV, uma das quais, imagine-se, ligaria Aveiro a Salamanca!
Mas não deixa de ser caricato que nos arrisquemos a ver a Espanha toda ligada entre si, e com ligações a França, sem que nós tenhamos a capacidade de avançar com 1 metro sequer. Não nos queixemos depois que mais uma vez ficámos para trás e que somos os coitadinhos da Europa.

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