A Escola

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

João Espinho

Como pai, e encarregado de educação, estive no princípio deste período lectivo em mais uma reunião para a qual são convocados os pais/mães/encarregados de educação/tutores onde se dá conta do que foi a avaliação feita pelos professores aos alunos da turma e onde os pais poderão, e devem, tirar algumas dúvidas sobre aquilo que lhes é transmitido pelos seus filhos/educandos, sobre o funcionamento das aulas – na perspectiva comunicada pelos alunos, e sobre outros assuntos que digam respeito à participação dos seus educandos na vida da turma e da escola.
Tenho alguma experiência neste assunto: já passei por ser representante dos pais/encarregados de educação (durante cinco anos) da turma de uma das minhas filhas, já pertenci a associações de pais, a órgão federativos das respectivas associações, já assisti a reuniões de assembleias de escola, a conselhos pedagógicos, disciplinares, de turma, etc…
Sei, por experiência própria, qual a relação que alguns pais têm com a escola, o que é que esta espera dos encarregados de educação e o que é que a comunidade espera de uma escola.
Sempre participei nestas tarefas de forma voluntária, pois para este tipo de empreitadas torna-se sempre difícil arranjar quem disponha de tempo para colaborar e até há quem ache que é uma perda de tempo andar a discutir o sexo dos anjos em intermináveis conselhos pedagógicos ou assembleias de escola. É verdade que, daquilo que ainda me consigo lembrar, assistir a determinadas reuniões, onde os encarregados de educação têm o simples papel passivo de assinar a folha de presenças, era um verdadeiro enfado e, acredito, poucos terão paciência para mais um aborrecimento que lhes rouba algum tempo disponível.
Mas tratemos da reunião a que me referi no início.
Foi uma reunião que me deixou desgostoso e na qual estive à beira de explodir a minha indignação. Não o fiz, pois isso seria entrar no mesmo barco, navegar em águas agitadas e, ainda por cima, remar contra a maré.
A directora de turma fez o que lhe competia e relatou os factos mais relevantes da classe: assiduidade, participação dos alunos, disciplina, motivação, etc…. Isto é, transmitiu aquilo que ouviu dos professores da turma. Refira-se que qualquer pai/encarregado de educação pode, em dias e horas calendarizadas, reunir-se com o director de turma do seu educando, expor as suas questões e tratar dos assuntos que considere pertinentes sobra a vida do seu filho na turma.
A exposição feita pela directora de turma, julgo, não terá trazido surpresas a quem assistia à reunião, acreditando que todos os que ali estavam se interessam e acompanham os estudos dos seus filhos/educandos.
Porém, a atitude da maior parte dos pais/encarregados de educação (P/EE) foi fazer um julgamento público de alguns professores. Porque os seus filhos/educandos haviam obtido notas inferiores às desejadas; porque os seus educandos se queixavam do comportamento dos professores, porque alguns professores não são competentes. Ouvi uma mãe dizer “a minha filha não dá graxa e por isso tem nota baixa” e, pior ainda, virou-se para o referido professor questionando-o “o senhor tem filhos?”, como se, para se ser professor, houvesse a obrigação de também se ser pai. Felizmente que o professor se limitou a, com a cabeça, dizer que não. Calcule-se, porém, que o professor, por motivos de saúde ou orientação sexual estivesse impedido de ser pai? Com que cara ficaria aquela encarregada de educação? E, suponhamos, que o professor também era pai. Em que é que este factor seria determinante no seu desempenho profissional?
O professor visado nas críticas, que aumentavam de tom pois em grupo somos todos mais fortes, levou com uma carga de críticas durante mais de meia hora. Sou incapaz de avaliar pedagogias, parâmetros de avaliação ou seja lá o que for no que respeita à condição de ser professor numa escola do ensino secundário (11º ano). Reparei, no entanto, que alguns P/EE se sentem no direito de saber mais que os professores, exigirem dos professores que os substituam na sua condição de pais, que os professores levem ao colo os/as meninos/as ao êxito de serem os melhores.
Sim, porque o problema subjacente a todas as críticas, era a nota de final de período. Obviamente que injusta, na óptica dos P/EE. Ou porque no ano transacto o educando tinha obtido 18 naquela disciplina e agora sofria a humilhação de não ultrapassar um 15, ou porque os trabalhos não estavam a ser avaliados de forma imparcial – deve ter sido nesta altura que se aflorou a graxa – ou porque isto e mais aquilo.
Sei qual o empenho que a minha filha (neste caso a do secundário) tem em determinadas disciplinas, sei como e quando se esforça mais, sei quando ela está a precisar de um aconselhamento e de uma ajuda caseira.
Mas naquela reunião calei-me.
Porque percebi que a maior parte dos pais desconhece, evita, o que é dar aos seus filhos a autonomia – asas para voar – que lhes vai permitir, no futuro, ser aquilo que nós, pais, para eles desejamos e que é, seguramente, o melhor.
Devemos todos participar nestas reuniões e na vida das escolas. Mas devemos ter o bom senso de não querer ser aquilo para o qual não recebemos formação.
<p align=’right’><b><i>(crónica igualmente publicada em
<a href=´http://www.pracadarepublicaembeja.net´ target=´_blank´ class=´texto´>http://www.pracadarepublicaembeja.net</a> )</i></b></p>

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