A direita neo-liberal e a extrema-esquerda

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Paulo Arsénio

eleito pelo PS - AM Beja

Portugal é um caso raro na cena política europeia no que toca às actuais forças de oposição ao Governo. Na realidade não se entendem em qualquer assunto. Excepto um: derrubaram o Governo, independentemente do que isso possa significar de encargo futuro para o país.
Vejamos alguns exemplos:
A direita neo-liberal, representada em Portugal pelo PSD e pelo CDS-PP, há muitos meses que defende a intervenção financeira estrangeira em Portugal. Recordo-me que o dr. Passos Coelho anda há meses em bicos de pés desejoso de ser o agente-mor do FMI no nosso país. Quando surgiu a oportunidade de provocar uma crise política que obrigasse simultaneamente à intervenção de outros organismos internacionais, entre os quais o FMI, o dr. Passos Coelho não desaproveitou a ocasião. Olhou para o seu umbigo. Não para o país.
As forças de extrema-esquerda e da esquerda radical e totalitária, representadas em Portugal pelo Bloco e pela coligação de comunistas com uns estranhíssimos verdes, pensam o contrário. Gritam “Contra o FMI marchar, marchar”, recusando-se sequer a reconhecer a legitimidade da instituição mesmo que chamada pelos órgãos legítimos do Estado português, saídos de eleições democráticas.
Neste ponto nada une as forças da direita neo-liberal às forças da extrema-esquerda totalitária.
Participação em organismos como a NATO e a União Europeia: a direita neo-liberal é favor da participação de Portugal nestas instituições colectivas. A extrema esquerda é radicalmente contra a participação de Portugal na NATO e no fundo, no fundo, também na União Europeia, embora não o digam de forma tão explicita. É que os fundos comunitários que vão vindo de Bruxelas dão jeito às autarquias de todas as cores.
Neste ponto nada une as forças da direita neo-liberal às forças da extrema-esquerda totalitária.
Escola pública, Sistema Nacional de Saúde, Segurança Social Pública: a direita neo-liberal gostaria de canalizar partes substanciais dos recursos públicos para o sistema privado de ensino e gostaria de privatizar parte substancial do Sistema Nacional de Saúde e da Segurança Social pública, deixando os mais fracos e vulneráveis fora do sistema solidário que Portugal conseguiu construir, aumentando assim as desigualdades sociais na sociedade portuguesa.
A extrema-esquerda pretende um sistema exclusivamente público, vedando aos privados a possibilidade de concorrerem no mercado com produtos e ofertas complementares nas áreas que atrás anunciei. O Estado é tudo.
Neste ponto nada une as forças da direita neo-liberal às forças da extrema-esquerda totalitária.
Caixa Geral de Depósitos/sistema financeiro: a direita neo-liberal está mortinha por privatizar parcialmente o banco do Estado, primeiro parcialmente e depois, numa segunda fase, na totalidade, dinamitando irresponsavelmente o pilar maior de segurança do sistema financeiro português.
A extrema-esquerda, se tivesse oportunidade, voltaria a fazer um segundo 11 de Março e nacionalizaria tudo o que fosse banco e seguradora neste país, com as consequências igualmente ruinosas que daí resultariam para Portugal.
Neste ponto nada une as forças da direita neo-liberal às forças da extrema-esquerda totalitária.
RTP, REFER e outras empresas do sector empresarial do Estado: a direita neo-liberal está desejosa de privatizar um conjunto de entidades em função dos resultados económicos das instituições, recusando-se sequer a avaliar a importância de algumas empresas no que respeita à coesão territorial que garantem. Uma CP ou uma REFER privatizadas na componente de serviço ferroviário significaria o fim imediato de comboios para todo o interior do país, por exemplo. E a entrega da RTP a um grupo privado significaria o monopólio da direita neo-liberal sobre todo o sistema de televisão do país.
A extrema-esquerda é contra todas estas medidas.
Neste ponto nada une as forças da direita neo-liberal às forças da extrema-esquerda totalitária.
Mas foram capazes de se unir todos, fazendo tábua rasa de tudo o que os separa, para derrubar o Governo.
Desejo sinceramente que no dia 5 de Junho aqueles que se uniram apenas para destruir, sem terem reais alternativas baseadas no equilíbrio, na moderação e na tolerância que o país exige, saibam ser igualmente tão unidos para encontrar uma solução estável de governo para Portugal.

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