A culpa é <br>do padeiro*

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Sandra Serra

Noite dentro o padeiro amassa dando forma ora ao pão de quilo, ora ao paposseco. Manhã bem cedo Chico padeiro percorre as mercearias da cidade distribuindo os pães ainda quentes. Operação stop àquela hora da madrugada e o Chico que se esqueceu dos documentos em casa. “Oh sô padeiro se vier um desses de quilo, a gente faz de conta que não viu”. Com menos um pão para entrega, é chegado à mercearia da D. Isilda, mulher grande que parte bordas de pão assentando-o nos peitos. “Menos um pão é que não pode ser! Arranje-se Chico padeiro à hora de abrir a loja quero cá o pão em falta”.
Sem pão que lhe salve a honra de padeiro cumpridor dos serviços prestados, Chico não está com delongas e na padaria mais próxima compra o pão que lhe há-de trazer de volta a estima da mulher. Satisfeita pela vontade cumprida, Isilda convida o Chico para jantar lá em casa: “Você leva o pão”. E o Chico lá parte, contente da vida de volta à padaria. De regresso, encontra Acácio, homem de bigode farfalhudo e barriga proeminente que lhe vende a farinha. “Sabes como é Chico, a vida está difícil e a farinha está cara. Ouvi dizer que vais jantar com a Isilda? Sabes, se me deixasses ir lá por ti, talvez te possa continuar a vender a farinha pelo mesmo preço…” E lá foi o Chico, de volta a casa onde haveria de jantar, sozinho, o peixe frito do almoço.
Toca a campaínha. Seria a D. Isilda a pedir pão para partir sob os peitos? Não, é o Ramiro, o homem do fermento. “Sabes como é Chico, a vida está difícil e o fermento está caro. Conheces o Mário, o meu cunhado que quer ser presidente da câmara? Pois é, precisava de alguém assim, trabalhador como tu, que dissesse bem dele à imprensa”. E lá ficou o Chico, com hora marcada para falar na rádio, pensando na Isilda, a esta hora cortando bordas de um pão que não era o dele. Toca o telefone. É Vicêncio, o presidente da câmara. “Sabes como é Chico, a vida está difícil e tu não te podes dar luxo de perder a tua padaria. Podias dizer na rádio que o Mário, o cunhado do Ramiro, é um pantomineiro da pior espécie”.
Chico chega à rádio pronto para dizer o discurso combinado no debate que opõe os dois homens da política. Artur, jornalista do programa da manhã, chega-se-lhe sorrateiro ao ouvido. “Sabes como é Chico, a vida está difícil e os empregos estão escassos. E o Mário, cunhado do Ramiro, accionista da rádio e irmão da Isilda não ficaria contente se dissesses aquilo que não deves”.
Moral da história: as pressões são constantes no dia-a-dia dos padeiros, dos merceeiros, dos presidentes e aspirantes a presidentes, dos jornalistas. Quem disser que não é verdade mente. E se, por vezes, a “ombridade e dimensão profissional” da pessoa em causa consegue transpô-las, outras há em que no peneirar só passa aquilo que convém ao padeiro, ou mais fermento ou mais farinha. Mas deste pão também só o come quem quer, ou quem não distingue um belo pão cozido a forno de lenha de uma carcaça mal enjorcada. Infelizmente, e apesar de não só de pão viver o homem, também ninguém consegue viver sem ele. E assim, dia-a-dia, continua-se a engolir a seco, suportando o peneirar de verdades à medida do padeiro.

* A propósito da notícia publicada no jornal “Expresso” que dá conta de que um assessor do primeiro-ministro terá telefonado para a RTP, durante um dos noticiários do primeiro canal, e exigido falar com o editor e depois com o pivô, para condicionar uma notícia. Todos os pivôs desmentiram o facto. Quanto a mim não duvido nada que tal tenha acontecido. E que volte a acontecer. E enquanto estas denúncias não forem feitas, não pelos “Agostinhos” que agora deram em zeladores da imprensa, mas pelos próprios jornalistas, continuaremos a comer muita carcaça mal enjorcada.

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