A boa educação

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Mariana Maia de Oliveira

estudante do ensino superior

As pessoas bem-educadas dividem-se em duas categorias: as Pessoas Bem-Educadas de Tipo 1 e as Pessoas Bem-Educadas de Tipo 2. As primeiras são fáceis de definir: trata-se de pessoas que costumam desempenhar competentemente o seu papel social, quando simpáticas são-no desinteressadamente e sem pretensão de parecer mais do que o são de facto. São consistentes com o que se pode esperar delas – ou consistentemente cordiais ou consistentemente intratáveis, que é também uma certa forma de boa educação. Embora englobem um grupo relativamente amplo de feitios e carácteres, a sua classificação não levanta grandes problemas porque têm em comum essa constância que os torna facilmente identificáveis. O segundo tipo de pessoas é mais difícil de reconhecer. Com frequência, são confundidas com as Pessoas Bem-Educadas de Tipo 1, embora, quando sujeitas a análise cuidada, seja quase improvável continuar a incorrer no erro de classificação. As Pessoas Bem-Educadas de Tipo 2, para regozijo seu e exaspero dos demais, vivem, em geral, satisfeitas com a sua condição.
As Pessoas Bem-Educadas de Tipo 2 têm uma característica fundamental: o de alterarem radicalmente o seu comportamento em função das pessoas e das circunstâncias. Não se trata, no entanto, de uma louvável capacidade adaptativa de funcionário exemplar, mas de um vira-casaquismo descarado e pouco engenhoso – um pouco à maneira do camaleão, escolhem a melhor cor para cada altura. Não se pense, contudo, que a este pouco se resume o segundo grupo taxonómico – a complexidade da Boa Educação de Tipo 2 vai muito para além desta preliminar e simplista abordagem.
As Pessoas Bem-Educadas de Tipo 2 costumam nidificar em repartições públicas, secretarias, escolas, hospitais, farmácias, correios, supermercados, transportes; no entanto, podem com facilidade ser avistadas no dia-a-dia em qualquer outro domínio da vida pública e privada. Em geral, preferem sítios com grande afluência de gente, para que possam saborear em grande escala e com maior deleite os perniciosos efeitos da sua conduta. Existem alguns sinais que permitem saber que se está em presença de uma Pessoa Bem-Educada de Tipo 2 – por exemplo, quando o caso for a necessidade de obter um carimbo num papel, nunca nos ser possível alcançar esse objectivo em menos de seis etapas e algumas horas de penoso esforço. Ou, também, quando qualquer situação aparentemente simples de resolver for complicada e dificultada até às últimas consequências (a persistência e a obstinação, condimentadas com a poesia de alguma inércia, são atributos que não se podem negar às Pessoas Bem-Educadas de Tipo 2).
As Pessoas Bem-Educadas de Tipo 2 caracterizam-se também por uma certa incapacidade em perceber que, se A for igual a B e B for igual a C, então A também vai ser igual a C. Em geral, são um repositório automatizado de ordens que cumprem alegremente, ponto por ponto, sim porque sim, não porque não ou não porque também sim, é assim e acabou a conversa. Apreciam monossílabos, respostas inconclusivas, pleonasmos, perífrases e eufemismos (bem se vê que, por via deste amor pelas figuras de estilo, outra coisa não poderiam ser senão uma enormíssima metáfora da estupidez humana). Gostam de manter uma certa distância porque talvez (hipótese sobre todas hipotética) vivam apavorados com a ideia de se encararem a si próprios e à sua microscópica pequenez, e fazem questão que notemos claramente como a nossa vida depende do carimbo que está traiçoeiramente do outro lado da barricada (do outro lado do balcão). As Pessoas Bem-Educadas de Tipo 2, sim, não dispensam em geral um balcão (não obrigatoriamente um balcão físico), sem o qual se sentem desprotegidas e se tornam inofensivas. Amam-no incondicionalmente e ao seu poder para exasperar uma fila com a sua paciente lentidão a agrafar um papel, a fazer um telefonema, a dizer “ali”. A felicidade das Pessoas Bem-Educadas de Tipo 2 aumenta proporcionalmente com o tempo que nos fazem perder. É preciso, por isso, ter algum cuidado com elas – porque, embora nunca alcancem efeitos verdadeiramente catastróficos, conseguem com notável sucesso enguiçar-nos burocraticamente a vida.
As Pessoas Bem-Educadas de Tipo 2 medem sempre a relação custo-benefício do seu sorriso. Ter segunda intenção é a primeira intenção delas. Regra geral, são selectivamente solícitas, e são-no de acordo com o critério único e subserviente de quem lhes está acima e de quem julgam que lhes está abaixo (ainda que temporariamente). O comportamento das Pessoas Bem-Educadas de Tipo 2 é muito sensível à sonoridade de certos apelidos e de certos dê-érres antes deles; gostam que lhes dêem palmadinhas nas costas e lhes digam “muito bem” – o equivalente humano a um amendoim depois de uma acrobacia. Na dúvida, optam sempre por conservar um nível base de arrogância, como um castelo muralhado em que se protegem dos inimigos exteriores. Por vezes, uma Pessoa Bem-Educada de Tipo 2 pode ser desmascarada quando, fora do contexto habitual em que nos conhece, perde subitamente a simpatia solícita que tão exemplarmente parecia pautar o seu carácter.
As Pessoas Bem-Educadas de Tipo 2, não obstante o negro, pejorativo e quiçá injusto retrato que lhes foi traçado, conseguem ser adoráveis. Se, no seu imaginário, fizermos parte do conjunto de pessoas a quem entendem que devem obedecer servilmente, podemos mesmo passar toda uma vida convencidíssimos de que se trata de uma Pessoa Bem-Educada de Tipo 1. Quando retirada do seu habitat, a Boa Educação de Tipo 2 tende a regredir, mas a propensão para reincidir costuma ser elevada.
Para que se possa chegar à derradeira certeza de se estar perante um caso de Boa Educação de Tipo 2, é importante verificar a ocorrência, pelo menos uma vez, do inequívoco sinal – as Pessoas Bem-Educadas de Tipo 2 são das únicas que, por uma qualquer magia biológica, conseguem inesperadamente fazer com que comece a subir por nós acima aquele calor muito próprio, em ondas espasmódicas de cólera com algumas notas de raiva, aquele incêndio calado de dentes cerrados que fuma pelas janelas escancaradas das narinas, aquela irritação inconfundível que, não fosse o decoro e um certo constrangimento pelo respeito da norma social, facilmente desembocaria em violência. O caso das Pessoas Bem-Educadas de Tipo 2 é talvez o único perante o qual se justifica ser uma Pessoa Mal-Educada em último grau.

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