A Autenticidade dos espontâneos

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

José Nicolau Gonçalves

A 19 de Março de um ano destes, num hotel dos que existem em Beja, ou noutro local qualquer, teve lugar um jantar informal e absolutamente espontâneo. Na ementa constava pedir ao Mestre pensador que aceitasse o repto das centenas ou até milhares de espontâneos presentes no sentido de afirmar, logo ali – espontaneamente, que aceitava continuar, como grande e único filósofo, sujeitando-se como candidato do regime a dirigir o partido determinado, por mais uns anos.
A refeição e a conversa entre os convivas espontâneos aproximavam-se do fim. Coube aos mesteirais da convocatória, sempre à revelia do Mestre pensador, em tom desesperante e comovido apelar à aceitação do convite espontâneo que emergia das bases na forma de uma autêntica vaga de fundo. Vem de novo, caminha no sentido de nos guiar, que o tempo urge, as eleições são já para daqui a um ano e como isto anda… até podem ser antecipadas! Nada como assinalar o terreno se a vontade de não o perder é temerosa.
Eis que o Mestre pensador, homem dedicado às ponderações, reflexões, observações e tudo o mais que não termina em afirmações e convicções, ergueu-se entre os seus espontâneos e dedicados seguidores e proferiu: Economizem energia que a ladeira é longa. Agradeceu a autentica espontaneidade, delicadamente como é seu jeito, deixando no ar a reacção positiva ao convite. Sem compromissos. Sem deixar cair a genialidade de tamanha ordenança palaciana. Recordou o cansaço. Relembrou o esforço que se lhe exigia.
A sala sucumbiu num silêncio profundo. A angústia tomou posse dos convocantes que desesperados se sentiram envolvidos na dúvida da humilhação. O que o Mestre lhes fizera soava a traição. Um uso e abuso dos esforços alheios, próprio de quem apenas reconhece o reencontro com o espelho. Tanta gente naquela sala. Centenas e centenas de quilómetros percorridos em vão. Tanto cansaço acumulado em inútil tentativa.
E aquele era o homem que os motivara nas visões políticas. O seu general. O seu Mestre pensador. A culpa tomou conta dos convocantes do repasto. A dúvida sobre se não teria sido melhor combinar os discursos… mas como queria o Mestre que parecesse espontâneo?!
Restava-lhes pedir desculpas aos presentes. Defender a face assumindo a humildade de quem desconhecia a reacção do líder. Sabe-se que as sobremesas o Mestre pensador já não declinou. E no entanto pareceu o Mestre pensador querer ensinar que a história se encara como fazem os actores eternos do teatro do tempo, fitando a peça como se não tivesse acontecido.
Nas despedidas o Mestre pensador ainda relembrou, oportunamente, que todos são responsáveis pelas escolhas que fazem. E são, mesmo por aquelas que não sabem que estão a fazer… Todos temos de fazer escolhas. – disse o Mestre – E chegará o momento de fazer a minha. Afastou-se num choro silencioso, porque os Mestres também choram, mas não instintivamente.

<b>NOTA </b>Qualquer semelhança com algum facto ocorrido nestas circunstâncias é pura coincidência.

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