A aprendizagem do silêncio

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Vítor Encarnação

A primeira repetição de sons é a tentativa inicial de compreensão daquilo que nos rodeia. Rasteiros, do tamanho de mesas, aos tropeções, ficamos ávidos de sílabas e ditongos. Quando somos pequenos e descobridores, o mundo atrai-nos para a sua multiplicidade de sentidos. Dentro das bocas, numa mistura de chupetas e dentes de leite, na complexidade do aparelho fonador, descobrimos que cada significado tem o seu significante, como se cada coisa dita fosse uma tecla que nos devolve uma imagem. É o génio que sai de dentro da garrafa e nos concede um desejo. O desejo de chamar pai e mãe e dói-dói. E sentir o absoluto encanto de que o som está certo. Sentir que eles respondem com um sorriso, com um abraço e que a mãe dá um beijo no dói-dói e a dor passa.
E os vocábulos não nos largam mais. Multiplicam-se por muitos mil. Acordamos com uns e deitamo-nos já com outros. E tornamo-nos coleccionadores de palavras. E não deitamos nenhumas fora e elas não nos pesam. Tiramo-las de ouvido, arrancamo-las dos livros. Primeiro o nome, a idade, a família, a rua, depois a cidade ou o campo e depois os países e o mundo. E se não nos ficarmos pela insuficiência daquilo que é básico e primitivo, a seguir vem a abstracção, a poesia, os conceitos filosóficos e políticos, a tese, a metafísica. Tudo palavras, e o que está dentro delas, que não sabíamos à partida de nós próprios.
E na nossa juventude apaixonada falamos tanto, as palavras caem do céu das nossas bocas como granizo que demora a derreter.
E descobrimos a opinião e a crítica e o desejo e a mágoa. E para tudo isso precisávamos de palavras que as dissessem como se não houvesse amanhã.
Aprendemos sons e conceitos e palavras. E não nos calávamos, principalmente quando nos mandavam calar.
Mas há uma altura em que acordamos com umas palavras e à noite já não nos deitamos com elas. Perderam-se no absurdo do dia. Não resistiram a mais um sol-posto. Umas perderam o valor, outras ficaram ocas. De umas tantas nem nos despedimos. Invertemos o destino da comunicação. Calamo-nos. Somos ridículos aprendizes do silêncio. Repetimos o silêncio. Imitamos o vácuo. E ele não nos diz nada. Não nos responde nada. Não há colo, não há sorriso, não há abraço. Só dói. E já não há ninguém que nos dê um beijo para a dor passar.
A boca já jantou e calou-se. Faz agora a digestão do vazio. Ouve-se a televisão, a máquina de lavar, a panela de pressão, o cão que ladra. Ouve-se o passado a arranhar as paredes do tempo. Ouvem-se os gritos de dor das palavras fechadas na impossibilidade das bocas.

A mudez escorre pelas paredes da sala e encharca o sofá de omissão. As palavras são como as cerejas que estavam em cima da mesa. Só lhes sobrou o caroço.

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