A Alquimia das Favas

Sexta-feira, 10 Maio, 2024

Napoleão Mira

Escritor

Desde muito jovem que os cheiros são um fator determinante na minha existência. A memória olfativa – que me remete para latitudes temporais irreversíveis – é ainda a matriz genética que me guia quando pretendo navegar no tempo e regressar à meninice.
Uma das primeiras lembranças é o da minha relação com certa leguminosa. Revisito aquele gaiato de perna traçada e calção de peitilho, deitado de barriga virada para o azul do céu num dos regos do faval do tio Joaquim Algarvio – lá para as bandas do cemitério de Entradas –, a refastelar-se até à insanidade de favas cruas.
Terá sido durante esse período que terei desenvolvido o meu gosto por este alimento de época limitada; diz mesmo um provérbio popular que favas o maio as dá, maio as leva!
Por essas alturas do calendário, os dias engrandeciam a olhos vistos. Era com demorada expectativa que, ao fim da tarde, assim à hora do sol-posto, esperava a chegada do meu pai montado na sua reluzente bicicleta azul para me levar a dar uma volta pela vila no seu suporte.
O meu pai tinha por esse tempo metade da idade que tenho agora.
Quando o via ao fundo da rua palpitava-se-me o coração. Quando chegava, desmontava alçando uma perna por cima do quadro ainda com a bicicleta em movimento. De seguida, retirava as molas que lhe prendiam a boca das calças, despenteava-me o cabelo num gesto que reputo de carinhoso e sentava-se comigo à sombra no poial da casa antes de partirmos para essa aventura de orgulho e descoberta.
No regresso, retirava do bolso meia dúzia de favas que descascava num piscar de olhos e, com o miolo e três paus de fósforo partidos ao meio, construía uma a uma um rebanho de ovelhas para eu brincar.
Já a minha mãe, que nunca foi uma cozinheira de “mão cheia”, fazia as melhores favas com casca que alguma vez degustei.
Pela vida fora – quando era tempo delas – era esta receita que lhe pedia que me cozinhasse. Talvez para que quando as voltasse a provar regressasse ao suporte da bicicleta do meu pai e, com os braços de petiz, me enlaçasse à sua cintura para nessa envolvência sentir a proteção que um filho requer de um pai.
Mas a vida não são favas contadas! A vida passa num sopro e da infância passo para os dias de hoje, para a minha horta, onde colhi as primeiras favas desta época e que me conduziram até este escrito.
Estas foram por mim semeadas, tratadas, colhidas, descascadas, preparadas e cozinhadas.
Para que a alquimia funcione a preceito também plantei alhos (para lhe utilizar as folhas na receita), coentros, que por esta altura já estão espigados como convém, e a inevitável alface com que se deve acompanhar o pitéu.
As carnes e enchidos que levarei a fritar e em cuja gordura as favas vão a cozer devem ser de qualidade.
Com a fórmula correta, e depois de confecionadas, estarei mais perto de, através do cheiro que emana da panela, regressar por artes mágicas ao faval do meu tio, às saias da minha mãe, ao suporte da bicicleta do meu pai ou até ser um imaginário moiral de ovelhas feitas de pau de fósforo e miolo de fava.

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