“Chuva não resolveu problema da pecuária no Campo Branco”

“Chuva não resolveu

A chuva das últimas semanas atenuou os problemas, mas o presidente da Associação de Agricultores do Campo Branco reconhece, em entrevista ao “CA”, que ainda são muitas as preocupações no sector, nomeadamente entre os produtores pecuários. “O problema que continua sobre a mesa são os custos anormais da alimentação dos animais, que continuam a ser alimentados à mão. E de acordo com as previsões, que dão chuva até princípios de Maio, isso continua a ser preocupante para a pecuária, porque os animais acabam por não ter hipóteses de pastorear”, diz José da Luz Pereira.

As últimas semanas têm sido de muita chuva no Campo Branco. Como agricultor e presidente da Associação de Agricultores do Campo Branco (AACB) é um homem mais aliviado?
Sim, naturalmente que sim. Como sabe, as condições climatéricas aqui no Campo Branco são sempre determinantes para a vida da agricultura e da pecuária. A seca durou muito tempo e agora a chuva tem outro valor. Mas o problema da pecuária ainda não está resolvido, na medida em que os animais ainda não têm pastagens suficientes para poderem alimentar-se. O problema que continua sobre a mesa são os custos anormais da alimentação dos animais, que continuam a ser alimentados à mão. E de acordo com as previsões, que dão chuva até princípios de Maio, isso continua a ser preocupante para a pecuária, porque os animais acabam por não ter hipóteses de pastorear.

Ou seja, a situação no Campo Branco era dramática…
… E o problema ainda não está resolvido! Porque os custos são elevadíssimos. E a minha preocupação é que esta situação possa vir a reduzir o efectivo pecuário na nossa região.

Há sinais disso?
Há sinais… Mas não quer dizer que se venham a concretizar! Se esta situação evoluir num sentido positivo as pessoas vão continuar. Mas se a evolução que está a acontecer não tiver continuidade, estou convencido que se vai dar pela primeira vez no Campo Branco uma redução com algum significado do efectivo pecuário. Porque os custos são anormais para a sustentação dos animais.

Há já quem tenha as suas reservas de palha esgotadas?
Há, há… E o que está a acontecer é que muita gente já está a levar os animais para as pastagens. E a continuar este tempo [de chuva], essas pastagens ficam pisadas, as ervas desaparecem e depois, dentro de pouco tempo, as pessoas têm o problema de ter esgotadas as reservas de feno e ter as pastagens naturais pisadas. Isto se continuar a chover como se prevê.

Em relação aos cereais, esta chuva veio salvar a campanha 2017-2018?
Havia muitas sementeiras feitas fora do tempo, dado que as terras não estavam em condições de serem semeadas. E era notório que essas culturas estavam “agarradas ao chão”, como se costuma dizer. Agora têm vindo a evoluir positivamente.

Ainda vamos a tempo de ter uma boa campanha nos cereais de sequeiro?
Não digo que seja boa, mas pode ser uma campanha razoável.

Neste período de seca extrema o abeberamento animal chegou a estar em causa no Campo Branco?
Não! Uma das nossas prioridades tem sido o abastecimento pecuário, tanto que a Associação está muito bem equipada para ajudar os seus associados. E no Verão de 2017, pela primeira vez, não tivemos pedidos de ajuda para abeberamento pecuário. Isso deve-se a um grande esforço que foi feito da parte da Associação e dos nossos associados, que aproveitando os mecanismos colocados à sua disposição pelo Estado…

Num Verão que tantos problemas trouxe à agricultura, também houve espaço para boas notícias.
Nesse aspecto sim. Não houve falta de água nas explorações pecuárias, ainda que tivéssemos tomado todas as providências caso isso acontecesse. Inclusive tínhamos contactos feitos com os bombeiros para alguma situação de emergência, mas felizmente não foi necessário.

O envelhecimento dos agricultores no Campo Branco continua a ser uma preocupação?
Vai havendo alguma renovação, está a melhorar. Ainda não é o desejável, mas está a haver alguma entrada de gente jovem na agricultura e na pecuária aqui na zona. Isto também se deveu à crise, pois houve muita gente que acabou por ficar aqui. Mas tem de se fazer mais qualquer coisa, tem de haver um esforço muito grande, tanto da nossa parte como das autarquias, para atrair os jovens para o campo. Porque os jovens que estão aqui numa zona rural mas muitas vezes não vão ao campo.

Vivem como se estivessem numa cidade.
Exactamente! Com as condições que têm, com o acesso que têm às redes de comunicação, desconhecem a vida no campo. Por isso, começámos este ano a fazer um trabalho com as escolas de Castro Verde para levar os miúdos ao campo. É um projecto que queremos alargar a todos os concelhos da nossa área de intervenção. Porque precisamos de atrair gente jovem para o campo. E tem de haver um grande esforço da nossa parte, das associações de agricultores e de produtores, das autarquias e do próprio Estado…

Tem de haver mais incentivos?
Pois… Inclusivamente, não ficaria mal de todo que fosse criada na nossa zona uma escola agrícola. Seria uma mais-valia para a nossa agricultura, até porque os nossos agricultores tiveram de sair da nossa zona para tirarem cursos agrícolas. Podia ser uma ideia interessante para aqui fixar os jovens.

Já apresentou essa ideia junto de quem de direito?
É a primeira vez que tenho esta conversa. Mas é uma ideia que tem “pernas para andar”, pelo menos para ser discutida.

Estamos a chegar ao final do quadro comunitário 2014-2020. Que expectativas tem relativamente ao futuro da PAC aqui para a região?
As minhas expectativas é que esta PAC continuasse. Seria o melhor para nós todos. E sei que isso é defendido a nível governamental.

E se assim não for?
Se houver alterações, gostaríamos que estas zonas do interior continuassem a ter o melhor tratamento, na medida em que as agro-ambientais são fundamentais. Deveriam continuar e melhorar as suas ajudas, de maneira a que pudessem ser expandidas e dar rendimento ao agricultor.

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Correio Alentejo

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