12h43 - quinta, 23/01/2020

Democracia


Vítor Encarnação
Este jornal em que escrevo sem peias sai para as bancas entre dois acontecimentos fundamentais para a manutenção dos princípios e dos valores do nosso regime democrático.
A eleição dos líderes do PSD e do CDS/PP, e a esperada e necessária pacificação e unificação dos dois partidos e dos seus programas políticos, não são apenas importantes no plano interno, no domínio das suas identidades, das suas ideologias, dos seus propósitos.
Esta clarificação é também absolutamente fulcral para o país. A bem da Democracia, tal como a conhecemos e da qual alguns parecem estar fartos, (é pena não haver visitas guiadas ao passado, principalmente ao cais das despedidas para o Ultramar), estes partidos têm de reencontrar o seu rumo, têm de voltar a afirmar-se como representantes de uma ideia de sociedade, justa, humanista, sóbria, e reassumir a sua condição incontornável de agentes de uma ação política assertiva mas cortês, incisiva mas urbana, para que se possam apresentar de novo como consistentes e fiáveis alternativas ao poder, e, ao mesmo tempo, dentro do espectro partidário convencional do centro e das direitas, venham, de uma forma digna e responsável, ocupar um espaço que limite, se possível que esvazie, as demagogias e os populismos.
A fraqueza destes dois partidos abre brechas perigosas de onde surgem figuras troando verdades e soluções simplistas. Os demagogos e os populistas são especialistas em passes de mágica verbal, em arregimentação de descontentes com emoções à flor da pele, assumidamente impolutos e virgens de esquemas, fazem uso de uma verve manipuladora de paixões exacerbadas, são peritos em acusar e apontar problemas e falhas, mas não são muito dados a envolverem-se em soluções conjuntas, a trilhar caminhos de diálogo ou assumir compromissos. Olham para o sistema político como um mal absoluto e entendem-se a si próprios como os únicos salvadores do povo, da pátria, dos valores nacionais e dos bons costumes. Tudo o resto é uma doença esquerdista, gastadora, irresponsável, corrupta até à medula.
Estar farto da Democracia faz parte do próprio regime democrático. É por aceitar e permitir a sua própria negação pública que ela se distingue, para melhor, de outros regimes políticos. Podíamos aqui enveredar por um estudo comparativo da nossa realidade política, económica, social, podíamos comparar-nos com os melhores ou com os piores, podíamos sublinhar só o que nos interessa, tudo é absolutamente relativo como sabemos: os níveis de segurança, a qualidade da saúde e da educação, os encargos com os impostos. As coisas de facto não estão bem e é por isso que a reorganização do PSD e do CDS/PP tem um valor imenso e crucial. Não porque concorde com todas as suas políticas ou posições ideológicas, mas porque neles subsiste uma garantia de aplicação da Constituição, uma entrega à causa pública, um respeito pelas instituições e órgãos de soberania.
Um regime democrático robusto precisa de ter pelo menos dois partidos fortes, dois partidos que se oponham, não há governos capazes sem oposições capazes, é quase sempre do debate, muitas vezes do desentendimento, que nascem os equilíbrios e as soluções.
A nossa Democracia tem falhas? Tem, muitas. É preciso mudar práticas e inverter rumos? Claro que sim.
Ainda assim nunca serei como a formiga que com medo da barata votou no inseticida.
Não sou militante do PSD ou do CDS/PP, mas nunca como agora ansiei tanto pelo seu refortalecimento.

O autor utiliza o
novo Acordo Ortográfico



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