16h21 - quinta, 12/09/2019

A Minha Primeira Namorada


Napoleão Mira
Era no tempo das cerejas, que para além de saborosas serviam para fazer brincos ou concursos de arremesso do caroço soprado, de entre outras parvidades que se fazem quando se tem 12 anos. Uma delas consistia em subir ao pilar da entrada do pátio onde morava e, desse plano elevado como se fosse um palco, cantar (ou fazer que!), acompanhando-me (ou fingindo que!), com uma velha guitarra de plástico o "Fado da Despedida", enorme êxito de Frei Hermano da Câmara nos finais dos Anos 60.
Tinha amigos, jogava à bola, brincava aos cowboys, coleccionava cromos da bola e tinha o meu saco de berlindes. A vida sorria-me! Sorria-me, mas estava manchada por um lapso de vital importância: não tinha namorada!
O Chupa, meu amigo de toda a vida, catrapiscava em refegos namorativos uma jovem de seu nome Isalina que, apesar de ser do género roda dezasseis, era bonita e já denotava saliências peitorais de se lhe tirar o chapéu, o que me deixava verdadeiramente desolado por nesta matéria não o poder acompanhar.
No mesmo pátio onde morávamos, vivia um cauteleiro que, para além de paraplégico, era também informador da PIDE, o que fazia com que aquele ser aparentemente inofensivo fosse detentor de um poder que amedrontava qualquer um.
Este sujeito tinha uma filha das nossas idades, que vivendo em casa de uma madrinha o visitava aos fins-de-semana, sendo numa dessas visitas que o meu amigo me perguntou porque não namorava a filha do PIDE. Respondi-lhe que não sabia como a devia de abordar, já que a minha natural timidez me impedia de tal veleidade.
Como quem não tem cão caça com gato, ficou o Chupa de por mim pedir namoro à promitente moçoila. A coisa ficou combinada para o final da tarde. Lá vi o Chupa dirigir-se à pequena e ter com ela uma conversa detrás da orelha, entregando-lhe o bilhetinho com o inédito pedido que, a medo, eu havia rabiscado, coisa que resultou em aceitação desse meu primeiro enlace com o sexo contrário.
O meu amigo trouxe-me de volta o desejado bilhetinho dobrado em quatro voltas, onde a filha do cauteleiro havia escrito nas costas a palavra mágica: "Amo-te". Forma única de dizer: "Sou tua e quero namorar contigo!"
O nosso primeiro encontro aconteceu debaixo das escadas que davam acesso à cave daquele pátio. Chupa e Isalina, a um canto, entregavam-se a uma esfregação própria de quem sofregamente se quer um ao outro descobrir. As mãos, bocas e línguas em frenética actividade denunciavam uma prática a que eu nem iniciado era.
Fiquei ali embasbacado sem saber o que fazer, enquanto a minha nova namorada esperava o meu avanço para aquele que seria o meu primeiro beijo molhado.
Fechei os olhos e aventurei-me na boca dela, sentido pela primeira vez aquele vulcão hormonal apoderar-se de mim, coisa que me sabia pela vida, mas não sabia como com ele lidar.
Com a repetição das investidas fui-lhe ganhando o jeito e, com o traquejo que fui alcançando, também me aventurei a abrir os olhos e imitar os trejeitos do meu amigo no canto oposto e assim, em arremessos de "copianço", lá fui adquirindo a prática necessária àquela parte do namoro em que dois imberbes corpos se desejam fundir em apenas um.
Hoje não me lembro do nome nem do rosto dessa minha primeira namorada. Lembro-me que era assim para o anafado e que tinha um cheiro (sempre os cheiros!) assim a dar para o amanteigado, o que para mim foi sempre sinónimo de "enjoanço".
Da rapariga nunca mais soube, mas no outro dia passei na rua onde morava a madrinha e nesse mesmo primeiro andar reparo que à janela está uma senhora anafada de cabelo grisalho mais ou menos da minha idade.
Por obra do acaso cruzámos os olhares e ela sorriu, perguntando-me lá do primeiro andar de onde se debruçava: "O senhor por a(c)aso tem horas?"
Para rostos e nomes não tenho qualquer memória, mas para vozes e cheiros sou melhor que um urso e, no acaso de um raro momento, regresso à minha puberdade e a minha memória auditiva devolve-me a voz daquela menina anafada que não sabia dizer os cês e que, por obra do destino, tinha sido a minha primeira namorada.
"São dez para a uma!", respondi.



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Data: 15/05/2020
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