16h22 - quinta, 21/02/2019

Os velhos


Vítor Encarnação
Já foram novos noutro tempo. Num tempo em que eles ainda não pensavam no tempo que havia de vir agarrado ao ocaso de cada existência.
Quando somos novos parece que o tempo nunca há-de acabar, achamos que a velhice é um caminho por onde nós nunca iremos.
A velhice já foi um tempo tão longe. Eles não deram pelo caminho, foi um dia após outro, devagarinho, foi a lenta soma dos anos. A barriga que vai crescendo, a careca que vai lentamente comendo o cabelo, um cabelo branco, depois outro, uma ruga solitária de uma arrelia, depois outra e ainda outra, o espelho a entrar no jogo todas as manhãs, o perto que vai ficando difuso dentro dos olhos, a carta de condução que se renova, o colesterol que se mete no sangue, a tensão arterial que sobe, o reumático que estala os ossos, o sexo que esmorece, o ar que falta a subir as escadas, os netos que nascem, os diabetes, o coração cansado, os comprimidos em jejum, após as refeições e ao deitar, a próstata, os netos que já fumam, a memória que se esboroa, a esclerose que se anuncia, a paciência que não se tinha, a afectividade que não se tinha, o tempo que nunca se tinha, a reforma, o vazio na alma, a sensação de inutilidade, de espera em vão.
Não deram por isso. Mas um dia acordaram e já eram velhos. Por magia. Negra.
Dali do banco, sentados naquelas travessas de madeira verde, ameias do seu castelo, berços das madrugadas e cama dos crepúsculos, eles observam o mundo que lhes resta. Vêem duas ruas, as pessoas que passam, os beirais dos telhados, o sino da igreja, a antiga taberna, a entrada da vila, a paragem das camionetas, as esplanadas cheias de gente nova. Vêem o movimento dos pardais novos e das mulheres maduras.
E vão comer as sopas. Alguns ainda bebem vinho. Outros estão no lar. E depois voltam e observam gente a dar importância a coisas sem importância nenhuma. Eles agora já sabem – tão tarde! – que há coisas que não têm importância nenhuma, coisas que não deviam ter tido importância nenhuma, assuntos que lhes roubaram noites de sono, dislates que os fizeram perder amigos, arrependimentos que os amarguraram.
Coisas sem ponta por onde se lhes pegasse. Um tempo perdido a pensar que se estava a encontrar. Mas o raio do livro da vida só se lê no fim da própria vida, a vida só nos deixa ler o livro que escrevemos quando estamos às portas da morte. Até lá vamos escrevendo os capítulos como se fôssemos imortais, como se fôssemos analfabetos.
Para lá da curva da estrada já não há nada. É o último capítulo. Aquele que explica os outros. Sem hipótese de reescrever a história, sem hipótese de mudar uma linha.
Agora a vida deu-lhes uma boina e um baralho de cartas. É o jogo que lhes resta. Têm de aproveitar todos os trunfos.
Baralham e dão de novo.



Outros artigos de Vítor Encarnação

COMENTÁRIOS

* O endereço de email não será publicado
07h00 - segunda, 20/05/2019
Odemira exige
medidas para novas
instalações agrícolas
A Assembleia Municipal de Odemira exige ao Governo que sejam tomadas medidas preventivas imediatas "quanto a novos investimentos em instalações agrícolas no território" até que seja produzida decisão definitiva sobre as propostas apresentadas pelo Grupo de Trabalho do Mira para o sector.
07h00 - segunda, 20/05/2019
Obras "dentro de pouco tempo"
na estrada de Santa Bárbara
O presidente da Câmara de Castro Verde confia que as obras de requalificação da Estrada Municipal 508, entre Castro Verde e Santa Bárbara de padrões, e do Caminho Municipal 1139, de Santa Bárbara de padrões para a mina de Neves-Corvo, poderão avançar "dentro de pouco tempo".
07h00 - segunda, 20/05/2019
Mineiro Aljustrelense
recebeu faixas de campeão
e fez festa com goleada
Foi um domingo de festa em Aljustrel, com o Mineiro a receber as faixas e a taça de campeão distrital e a brindar o Piense com uma goleada à "moda antiga" na 21ª jornada do campeonato distrital da 1ª divisão.
07h00 - sexta, 17/05/2019
Descentralização de competências:
"Estamos a dar um passo enorme"
Em entrevista ao "CA" o secretário de Estado das Autarquias Locais avalia a forma como os municípios estão a responder ao processo de descentralização de competências do Estado nas câmaras municipais, juntas de freguesia e comunidades intermunicipais.
07h00 - sexta, 17/05/2019
Fontes Bárbaras
tem nova adega
Mais espaço e maior capacidade para trabalhar na qualidade: são estas as principais mais-valias da nova adega da Herdade das Fontes Bárbaras, na freguesia de Entradas (Castro Verde).

Data: 17/05/2019
Edição n.º:
Contactos - Publicidade - Estatuto Editorial